segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

3 - Restrições - Racionamentos

“Estorial, com ou sem história”, por José Caria Luís
Como consequência do flagelo da II Guerra, certos hábitos e tradições das populações sofreram sérios reveses. Contudo, para a esmagadora maioria dos putos, houve uma coisa que se manteve fiel a si própria: a do caminhar pelo processo de pé-descalço. Tal como foi narrado na edição anterior, aqui, pelo concelho do Cartaxo, nada desse processo fora afetado; quem antes calcorreara de pé ao léu, poderia continuar a fazê-lo. As exceções aconteciam nos dias em que havia festa na terra, ou quando o fotógrafo (“a la minute”) se deslocava à Escola Primária para fazer o registo anual. Mesmo assim, nem todos iam a preceito, pois ainda restavam uns quantos renitentes, alérgicos ao calçado, que desalinhavam na observância do protocolo.
Inovações? Também as houve, reconheça-se esse facto. Alguém de dentro do Império Salazarista – ou ele próprio – resolveu implementar novas diretivas, que passavam a regulamentar o modo como cada um poderia adquirir os produtos alimentares na mercearia da esquina. Era um sistema de cadernetas, compostas por quadradinhos picotados, a chamada senha, onde, em cada uma delas, se designava o tipo de produto a levantar. De entre a ínfima gama contemplada, recordo-me do café, do açúcar, do arroz e das massas. O resto era adquirido nos candongueiros locais, por meio de cunhas e a bom preço.
O cardápio das refeições era muito monótono. Pela manhã, uma tijela de café com borras, salpicado de leite. Esse leite, de cabra ou de vaca, que a leiteira local, no seu périplo do porta-a-porta, havia deixado no portal. O almoço, quase sempre com base em batatas e mais batatas, tinha como ornamento uma lasca de bacalhau ou uma metade de sardinha por cabeça (comensal). Quantas vezes a sopa do jantar fora confecionada com recurso a ervas recolhidas nas valetas e cômoros rurais, como urtigas, acelgas, cardos e ineixas… Desde que fosse coisa verde, quase tudo era utilizado para compor a panela da sopa. Mas não depreciemos tais iguarias, porque, se, na época, eram cozinhadas como único recurso, hoje, na segunda década do séc.XXI, parece que tais vegetais voltaram à mesa dos tugas, quanto mais não seja pela singularidade.
Quando, no dia da Feira ou da Festa, se matava uma galinha, era mesmo uma “festa”. A galinha era nada e criada no quintaleco do casebre, mas o arroz que a acompanhava fora adquirido por meio das tais senhas de racionamento.
Na cozinha rural, sobre a lareira, crepitava o brando lume, feito com cepas, cavacos, ramos ou vides. Os cavacos podiam ser adquiridos no Maurício, em Pontével, na Amélia Serafana, em Vale da Pinta, ou na carvoaria do “pé-descalço” e sua ajudante, a esposa Amália, no Cartaxo. Isto, entre os anos 40 e 50. Mas, devido às limitações financeiras da época, havia muita gente que solucionava a carência deste tipo de combustível de outra maneira: os conhecedores do meio rural percorriam as cercanias e deitavam a mão a tudo o que lhes dava jeito. Assim, já havia lume para todos: tanto para os que pagavam, como para os que roubavam. Era o despontar da democracia. Mas os fogareiros a petróleo, não tardariam por aí.



2 - Pé-descalço, maus caminhos

    Desde muito cedo, após rescaldo da 2ª Grande Guerra, que me habituei a ver os demais a andar descalços. Eu, que, aos poucos, fui sabendo que aquele ritual era moda, não fui de modas e acabei por aderir à ritualidade.
    Rua abaixo, rua acima, vinhas e pomares adentro, era ver a malta a correr, em pé pelado, para se desenvencilhar dos predadores que nos cercavam. Na rua, eram os matulões, que, a pretexto de mostrarem a sua valentia, se aprestavam para nos acertar o passo, mas, de botifarras calçadas, não tinham hipóteses. A fuga dos pequenotes era sempre coroada de êxito. Nas vinhas e pomares, ainda era mais difícil a captura dos infantis. Se, num salto, se subia à macieira, de um pulo se descia da cerejeira. Os seus donos, já vergados pelas maleitas da idade (40-50 anos), quando pretendiam encetar a perseguição aos ratoneiros, mal podiam com os pés, quanto mais com as botas… E, no meio de todas as regalias, apenas dois fatores quebravam aquela onda de felicidade: uma topada numa pedra mais saliente, aquando dos jogos de bola com a antiga trapeira, ou quando, na fuga, algum espinho de tojo ou de pilriteiro se atravessava no nosso caminho e se nos cravava na planta do calcante.
    Até a pisar uvas se levava vantagem. Ninguém teria que passar pelo incómodo de se descalçar e voltar a calçar, ao invés dos calçados que, não tendo as condições mínimas para lavar os pés e pernas, impregnadas de mosto até às virilhas, nem sequer ousavam entrar na lagaragem.
    Quando chovia, o prazer era enorme! Andar a saltar e a patinhar naquelas poças de água e nas valetas, era um regalo só ao alcance dos predestinados, coisas de que os pé de chumbo das botas não podiam usufruir.
    Eram estes os argumentos que a rapaziada utilizava para persuadir os “resistentes” a deixarem-se de mariquices e mandarem as botas às malvas; convencê-los de que só malta fixe teria aptidão para ser um pé-descalço. Pura higiene. Sempre de pés arejados, sem o bad smell dos calçados.
    Agora, que estamos na Era em que até já há sapatos de fibra ótica, perguntem ao pessoal da minha idade: - Era bom andar de pé-descalço, de calcante ao léu? Eles responderão: - Claro que era!
    Todavia, não posso escamotear duas verdades insofismáveis, pelas quais me senti profundamente incomodado. Pessoas fracas, por demais preconceituosas, tentaram colocar-me à margem da sociedade. Certo dia, teria os meus dez anos, quando, em trânsito apeado, de Vale da Pinta para o Cartaxo, tive a lata de pedir boleia a um carro que se aproximava. O “bondoso” do homem, o taxista Porto Artur, atendendo à minha petição polegar, até parou e mandou-me entrar. Porém, ao ver que eu apresentava os pés “inundados” de poeira da estrada de macadame, gritou:
    - Eh, pá!... Rua! Queres sujar-me o carro, ou quê?
    Segui a pé. Contudo, ao sair da estrada poeirenta e entrar no troço alcatroado, já dentro do Cartaxo, ali mesmo em frente à porta do Manuel Colega, ouvi, da parte deste:
    - Eh, pá! Então tu sujas os pés em Vale da Pinta e vens limpá-los ao Cartaxo?
    Eu só queria marcar a minha chancela pedonal no asfalto. Mas a verdade é que, já na época, não havia bela sem senão.