terça-feira, 7 de agosto de 2018

31-Quando a História passou pelo Cartaxo (II)

Quando a História passou pelo Cartaxo (II)

Crónica de José Caria Luís

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Na sequência da crónica do mês de junho, o Cartaxo voltou a ter protagonismo no que concerne a factos políticos de algum relevo.
Quando, em 1958, o Chefe de Estado, general Craveiro Lopes, entrou em conflito com Salazar, deixou de ser proposto para um segundo mandato. No propósito de sair da situação de impasse, resolveu Salazar convocar eleições para a Presidência da República. A contrapor as candidaturas dos independentes Dr. Arlindo Vicente e general Humberto Delgado, Oliveira Salazar apresentou o seu candidato da União Nacional, o contra-almirante Américo Thomaz. Após o descalabro, pela razão da força, de umas pérfidas eleições, e porque o sistema vigente era do género do vira o disco e toca o mesmo, de forma a manter o figurino político de então nunca o sistema permitiria que aquelas eleições fossem livres. Esse golpe culminaria com a nomeação, por Salazar, do renegado ribatejano Américo Thomaz, para exercer o cargo de Presidente da República. O Thomaz, contrariamente ao que dele se dizia, não me pareceu ser burro, de todo. E eu, numa reunião em que estive presente, durante uma sua visita à Marina de Vilamoura, – o que transcreverei noutro local – pude testemunhar isso mesmo. No entanto, rezam as crónicas e testemunhos de então, que quem tudo comandava na retaguarda era o seu mentor Oliveira Salazar.
Essas eleições tiveram campanha e tudo. Com a diferença de os gastos dos independentes terem sido obtidos através de subscrições públicas e donativos particulares, ao contrário do representante da União Nacional cujas verbas foram suportadas pelo governo de Salazar, isto é, pelo Zé Povinho. Contudo, além dos muitos milhares de boletins de voto roubados pela PIDE, muitos outros nunca chegaram a certas zona do país, onde se supunha haver muito povo do contra.
Foi assim que, numa manhã de primavera de 1958, apareceu pelo Cartaxo, a fazer campanha, a comitiva do general Humberto Delgado. Eu, com 14 anos, nunca tal tinha ouvido, quanto mais visto. À época, trabalhava na Recauchutagem e, nessa qualidade, fui incumbido de ir comprar umas tintas à Drogaria do Carlos Pego, porém deparei-me com o estabelecimento encerrado. Pelo que me disseram, o dono teria ido para o ajuntamento, na Praça 15 de Dezembro. Nem acreditei, já que sempre ouvira dizer que o Salazar nunca permitiu ajuntamentos onde figurassem mais de 2 pessoas. Curioso, desci aquele pedaço da Batalhoz. E nem foi preciso avançar além do Manel d’ Água, para ver aquele mar de gente que ali estava sem eu saber porquê e para quê. No entanto, deduzi que aquela multidão é que seria o tal ajuntamento. Mas com que finalidade? Perguntei ao cartaxeiro Alfredo Cachorrinho o que se passava. Este, quase em surdina, explicou-me o fenómeno. Estava por aí a chegar o general Humberto Delgado, o assumido ribatejano que se propunha derrubar de vez o sinistro regime salazarista.
Humberto Delgado chegou, enfim! E eu vi-o ali, a uma dezena de metros. Ouvi gritos de vivas e vi lágrimas em muitos rostos, mas o Carlos Pego chorava convulsivamente agarrado ao general. Porquê? Fiquei chocado e confuso.
  • Artigo publicado na edição de julho do Jornal de Cá.

30-Quando a História passou pelo Cartaxo (I)

Quando a História passou pelo Cartaxo (I)

Crónica de José Caria Luís

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A fazer fé na Wikipédia, desde o séc. XII, muita gente ilustre terá visitado ou, simplesmente passado, pela zona que, hoje, confina o concelho do Cartaxo. De entre todos eles, elenco apenas alguns, como o fundador Afonso Henriques, Isabel de Aragão, D. Dinis, também Nun’Álvares Pereira, mais o general Junot, o compositor húngaro Franz Listz, Almeida Garrett e, até, imagine-se, o estadista Oliveira Salazar, que, numa das raras saídas de S. Bento, estagiou uns dias na Quinta da Cruz, propriedade do seu amigo Embaixador Teixeira de Sampayo. O advogado e dramaturgo Ramada Curto, inimigo figadal de Salazar, também foi contemporâneo do Presidente do Conselho no concelho, que não no mesmo sítio. Viveu na Quinta do Refúgio, de que era proprietário, porém a uma distância de uns 4 km, em linha reta, ineficaz para qualquer golpe à base de zagalote. Mas as ilustres figuras que demandaram o Cartaxo não se quedavam por aqui, como mais à frente se revela.
A antiga Feira do Ribatejo – assim chamada antes da nova denominação de Feira Nacional de Agricultura – considerada que foi uma montra, um evento nacional de relevo, sempre teve a apetência no aparecimento e no aproveitamento de figuras políticas, altas figuras de Estado. Mesmo no período em que não havia concorrência, era preciso vincar, marcar posição e mostrar que quem mandava ali (e aqui) eram eles. Como se compreende, os ditos cujos, não habitando em terras do Ribatejo, sempre que se deslocavam à velha Scalabis tinham que, em condições normais, fazer o seu périplo através de terras da então vila do Cartaxo. A viagem era curta. Até porque, ao longo do traçado rodoviário entre Belém ou São Bento e Santarém, não tinham as suas limusinas que esgrimir e fazer golpes de cintura para atravessar o coração (salvo seja) do Cartaxo, terra que chegou a ser uma linda vila ribatejana. À época, circulando numa EN3 sem rotundas, nem certos tipos de atafulhos que provocassem engulhos, a comitiva não tinha motivo para se deter, salvo se, por via de outros altos valores, tal se justificasse, como veio a suceder.
Naquele tempo, em meados dos anos 50, o Presidente da Câmara Municipal do Cartaxo era o eng.º João Carlos Dias de Castro Reis. Homem escorreito, de bom trato, com a figura ideal para ocupar tal função, era, também, uma pessoa de muito prestígio a nível municipal. Tirando partido do raro momento, não deixou o edil de apelar à presença das massas, a fim de emoldurar o cenário condizente com passagem pela vila do “venerando”, do “mais alto magistrado da nação”, como na altura era tratado o P.R., Américo de Deus Rodrigues Thomaz. Ele, Thomaz, um ribatejano de Ferreira do Zêzere, que, diz-se, tinha vergonha de o ser.
A manifestação e a lisonja local de apoio ao P.R. foram de tal modo efusivas que, no rescaldo de curto prazo, catapultou João Carlos Reis para Governador Civil de Santarém. Não sei se o concelho do Cartaxo chegou algum dia a tirar proveito do facto, mas, a meu ver, também não seria caso para isso.
Todavia, quer em 1958, quer em 1974, a História voltou a terras do Cartaxo, conforme se narrará na próxima edição.
  • Artigo publicado na edição de junho do Jornal de Cá.