sábado, 9 de junho de 2018

29 - O Corpo Discente do Concelho (IV)

O Corpo Discente do Concelho (IV)

Crónica de José Caria Luís

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Na E. I. C. de Santarém, o pessoal estava bastante disperso. Com cursos e anos distin­tos, horários muito diversificados em que todos tinham que esperar até à saída do último elemento das aulas, não era fácil conjugar a saída do grupo para o Cartaxo a horas decentes. Na verdade, nos tempos da bicla, sempre havia a possibilidade de dar o salto para a santa terrinha, onde nem sempre havia muito que fazer, salvo umas passagens, rua abaixo rua acima, à cata de algumas miúdas, ou deitar o olho no café local, onde algumas estariam a ver as séries Bonanza, Dr. Kildare, o Santo, ou o Homem Invisível. Ainda nos tempos da bicla, no mês de maio, a nossa sorte eram as novenas. Em andamento de contrarrelógio, desde Santarém, sempre dava para ver as meninas à saída do evento religioso. Mas só ver, e ao longe, porque, qualquer de nós, com a farpela toda encharcada pela sudação, nem a moçoila menos prendada da terra se agradaria de tais bacanos. Porém, desde que se optou pela carripana como transporte, tudo ruiu.
Como era, então, passado o tempo de espera na cidade de Santarém? Na falta de proventos, que nos coibiam de desfrutar de outras veleidades mais profanas, valiam-nos as passagens do carismático Clementino pelo adro da Escola. O tipo, trajando de avental e pantufas, qual serviçal noturna, transmitia uma carga energética ao pessoal que desatava tudo ao piropo e à malcriadice. Também o santareno Pimenta, sempre que por ali deambulava, fazia as delícias do pagode. O fulano tinha a mania do Jiu-Jitsu. No sentido de pôr o pessoal em respeito, ameaçava-nos com um golpe de Jiu-Jitsu 47. Pelos vistos, ele teria os seus golpes todos numerados. A propósito do Pimenta, o assalto ao paquete St.ª Maria tinha ocorrido na altura. Ainda não se sabia do seu paradeiro e, a esse propósito, muito se especulava. Então, esse facto também era argumento da malta para amofinar o Pimenta, dizendo: – Ó Pimenta, tu é que tens o navio escondido debaixo da cama! Vai mas é entregar o barco ao homem! – o homem, subentendia-se, era o Salazar.
Também algumas serenatas, previamente combinadas, entre a escumalha de alunos da Escola Industrial e Comercial; do Liceu Sá da Bandei­ra e da Escola de Regentes Agrícolas, tinham lugar na velha Scalabis. Os recontros, quase sempre a partir das 22h, ti­nham lugar no jardim, em frente à Camionagem Ribatejana, ou no Campo da Feira. Sendo este último local menos vigiado pela P.S.P., havia livre-trânsito e tempo para es­murrar e ser esmurrado. Mas eles gostavam!… Todos gostavam: tanto os que assistiam, como os que davam e levavam. Tanto assim era que, amiúde, repetiam a dose.
De uma vez, a anunciada estrela da E.I.C.S. para a peleja noturna era o meu colega Pazadas. Largos ombros, arcaboiço a condizer, pernas arqueadas e com um par de manápulas que metiam respeito, foi-lhe confiada a nobre missão de pôr na ordem um tal rufia da Escola Agrícola. Nós, fiéis seguidores do Pazadas, exultávamos com o tareão infligido ao lavrador. Foi tal a surra que até foram chamar o prof. Chambel, subdiretor da E.I.C.S. para, através da sua veia diplomática, pôr cobro ao descalabro.
Crónica publicada na edição de maio do Jornal de Cá.

28 - O Corpo Discente do Concelho (III)

O Corpo Discente do Concelho (III)

Crónica de José Caria Luís

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Avizinhava-se o ano letivo de 1962-1963. Nos anos anteriores, as deslocações noturnas dos discentes, em bicicleta, para Santarém, de ida e volta, não tinham sido fáceis. Duran­te os meses de invernia, por muito querer e garra juvenil que se pudesse alardear, o corpo não era de ferro. Sobretudo para quem, como eu, já tinha completado uma jornada de trabalho duro e mais uns 40 kms de bicicleta, ainda ter que enfrentar mais outros 40, em saga noturna, espécie de duplicado, a tarefa não era fácil. Urgia, pois, dar a volta à situação, concebendo um tipo de transporte alternativo. Formou-se, então, uma comissão ad-hoc cujo propósito seria entabular negociações com as diversas empresas de camionagem, daquelas que demandavam o Cartaxo, a fim de se conseguir, a preços módicos, um autocarro que nos garantisse alguma comodidade e, quiçá, mais segurança.
Após algumas démarches, e com a adjudicação a favor do “Vinagre, Lda”, entrou em funções um miniautocarro, creio que de 25 lugares se ntados, mas cujos assentos muito raramente sentiram o peso e o contacto do traseiro de certos energúmenos. É verdade. Sentados, era coisa que quase nunca acontecia naquela amálgama de gente mal formada e pior comportada, salvo raras exceções como, por exemplo, as duas meninas que tiveram a desdita de fazer parte dos passageiros daquela carripana pejada de tal deprimente turba. As alunas, colegas de viagem, Lurdes Pina e Alice Gaspar, devem ter-se arre­pendido mil vezes da hora em que decidiram anuir a tais companhias. As moças, a par do motorista Sr. Joaquim, eram das poucas pessoas bem comportadas dentro daquele aca­nhado meio de transporte. Que gente tão insubordinada e tão mal formada que lhes havia de sair na rifa. Desde cantilenas da treta, anedotas a roçar a boçalidade, pulos e urros, de tudo se viu. A Lurdes, sempre que passava por algum de nós nas ruas do Cartaxo, baixa­va a cabeça e passava-se para o passeio oposto. E eram as meninas filhas de soldados da GNR, senão… pior seria.
Além dos nomes já elencados na pretérita publicação do JdC, daquele grupo que se fazia transportar em bicicleta e que neste ano optara pela carripana, entraram, além da citadas Lurdes e Alice, o Rui Martins, o Tibério, o Galinha, o Rogério sapateiro, o An­tónio J. Baeta, o Zé dos Amiais, o Domingos Caramelo, o Ludgero Capeleiro, o Ângelo Pego e o Acácio. Mais um, menos um, éramos perto de um quarteirão de jovens, pela medida antiga.
Quando se muda de sistema nem sempre se colhem benefícios em todos os seus parâmetros. Senão, vejamos: o miniautocarro saía do Cartaxo por volta das 19h15, mas a par­tida de Santarém era às 23h00, o que condicionava sobremaneira o modus vivendi daquela juventude. De facto, no que concernia a eventos em sociedade, o leque era bastante limitado. A bola e o “Bonanza” eram ao domingo, mas, fora isso, além de um ou outro programa televisivo em que metia película com porrada de criar bicho, ou aquele bailari­co que os chicos-espertos da aldeia tinham programado para o sábado, com início às 20h00, o que, por razões óbvias, nos tinha sido vedado. Mas havia mais, como se comprova no capº IV.
Crónica publicada na edição de abril do Jornal de Cá.

27 - O Corpo Discente do Concelho (II)

O Corpo Discente do Concelho (II)

Crónica de José Caria Luís

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Mas como, em termos de bicicletas, a rapaziada não era muito apologista de cicloturismo, e recorrendo ao sangue na guelra próprio daquelas idades, quase todas as noites havia refregas, a bom pedalar, entre o Cartaxo e Santarém.
Certa tarde de julho, quando o grupo se encontrava em formação, na Praça 15 de Dezembro, junto à praça de táxis, a fim de rumar a Santarém, passaram pela zona, mesmo em frente aos nossos narizes, em bom ritmo, dois ciclistas do Águias de Alpiarça, que, pelo que se supunha, andavam a treinar, a fazer preparação para a Volta a Portugal, prova que se avizinhava. Um era o “independente” Amílcar Mateus, o outro, mais novo, ainda “amador”, tinha o nome ou apelido de Jacinto. Os dois ciclistas desceram a rampa do Augusto Ferreira, deram a volta pelo Cruz & Jarego, subiram pela EN 3, e voltaram a aparecer na Praça 15 de Dezembro, onde nós, de combinação feita, os aguardávamos. Julgo que os dois terão reparado no nosso grupo, já que, com toda aquela parafernália de bicicletas ali expostas, difícil era passarmos despercebidos. Vimos que o duo alpiarcenses tomara o rumo de Santarém, agora, era a nossa vez de o fazer. Por isso, seguindo-lhe a peugada, quando chegámos à Churrasqueira Ribatejana, já íamos colados na sua roda. Naquele momento, fomos recebidos com desdém, acompanhado de sorrisos cínicos, como quem diz: – Esperem, seus nabos, que já vão ver como é que se pedala!… Mas isso, a nós, putos imberbes mas vaidosos, não nos atormentava.
Na subida de Vila Chã, com um primeiro safanão, o nosso grupo abanou e, a partir daí, apenas quatro de nós os acompanhavam. Depois, no Alto do Vale, a mais um esticão, respondemos com a nossa união. Daqui em diante, embora em bom ritmo, tudo seguia sereno. Porém, passando pela Quinta do Líquis e entrando nas Padeiras, assim que a estrada começou a inclinar, o Amílcar deu uma forte sapatada, mas o primeiro a rebentar foi o seu benjamim Jacinto. A meio da subida já só dois de nós prestavam guarda-de-honra ao primeiro. No fim, em frente ao Posto da PVT, o sprint final teve três protagonistas, mas o Jacinto, tendo-se atrasado um pouco, já não assistiu à nossa chegada. Para nada! Peneiras da juventude…Não tivéssemos ilusões, porque pedalar 13 kms não se comparava a uma etapa em linha, de cem ou mais kms, mas lá que tínhamos a mania, isso tínhamos.
Lembro-me de muitos dos que compunham aquela comitiva. Dois eram pontevelenses, o António Silvestre e o Vasco Pego. O primeiro, talvez por ter mais arcaboiço, também tinha a bicicleta mais pesada de todas, mas enquanto o Vasco já vinha a pedalar desde Pontével, o primeiro, como era empregado do Dr. Rocha Homem, partia do Cartaxo. Depois, de Vale da Pinta, vinha eu, o Humberto e o Luís Gaia. Do Cartaxo, eram o Zé Florindo, o Zé Octávio, o Fernando Mil-Homens, o Rogério Fanã e o Jorge Xavier. Depois, mais à frente, no Vale de Santarém, tendo nós quase meio caminho andado, aguardavam-nos os Isenteiros Mesquita e Francisco Vassalo. O nosso colega Rui Fonseca teve o privilégio de se fazer transportar na sua “Famel Foguete”. Era bem mais fácil. E para o ano, como seria?
Crónica publicada na edição de março do Jornal de Cá.

26 - O Corpo Discente do Concelho (I)

O Corpo Discente do Concelho (I)

Crónica de José Caria Luís

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Estudar? Estudar para quê? Era esta a questão que, nas décadas de 50-60, aflorava, em permanência, nos vários círculos do concelho. Se havia algumas pessoas que, inconscientes pelo seu desconhecimento e alguma dose de sensatez, se colocavam à margem desta questão, deixando o tema aos entendidos, muitos eram aqueles que, com ou sem conhecimento de causa, faziam questão de opinar acerca da mesma. Enquanto uns defendiam que o ato da escolha de enveredar pela via estudantil era útil e benéfica, muitos outros argumentavam que isso do estudar era só para ricos e vaidosos. Argumentos eram os mais variados: enquanto uns quantos avarentos diziam que, “hoje em dia, com tanta gente a estudar, não vai haver colocação compatível para todos”, também havia quem advogasse que sim, senhores, o seu filho, apesar de ter que trabalhar de dia para ajudar às despesas da casa, também ele entraria na vida académica, ainda que fosse no ensino noturno. É verdade que a idade condicionava esta modalidade, já que as matrículas estavam vedadas a menores de 14 anos, mas se o rapaz, a trabalhar desde os 10 aos, já tinha dado provas de possuir arcaboiço, tarimba e espírito de sacrifício, também estaria apto a enfrentar a vida académica noturna, acumulando-a com a de pedreiro, aprendiz de oficina ou balconista.
Se os estudantes diurnos do Externato Marcelino Mesquita, do Liceu Sá da Bandeira e da E I C de Santarém, já estariam, de certo modo, encaminhados, os candidatos sobrantes também tinham que fazer pela vida. Não adiantava vociferar, lamentando a falta de posses ou qualquer outro óbice e, muito menos, sentirem-se marginalizados. E, no sentido de contrariar aquele quadro, foram aparecendo, aos poucos, uns voluntariosos, qual Mem Ramires, decididos a avançar sobre Santarém.
Na maioria eram caloiros, como eu. E enquanto um grupo se deslocava por meio das carreiras de autocarro, outro, achando que essa modalidade era incomportável para as suas posses, muniu-se de bicicletas a pedal e vai disto: Cartaxo-Santarém-Cartaxo. Chovesse, trovejasse ou geasse, os horários das aulas eram para cumprir. Havia cheias no Tejo? As águas, submergindo as vinhas na zona da Ponte da Asseca, já haviam subido meio metro acima do dorso da estrada de asfalto? E, isso, que tinha?!… Não havia um muro, ao longo do qual se podia fazer equilibrismo com a bicicleta às costas? Então, era mesmo esse o caminho. Faltar às aulas é que não.
Éramos uns 12 ciclistas, sendo 2 de Pontével, 3 de Vale da Pinta e 7 do Cartaxo. Pelo caminho, íamos arrebanhando mais 2 em Vila Chã de Ourique e outros 2 no Vale de Santarém. Havia, no entanto, 1 que possuía motorizada. Como naquelas idades (14-18) todos têm a mania da competitividade, senão de superioridade sobre os demais, as idas e vindas eram feitas em pedalada a alta rotação. O protótipo das máquinas diferia bastante: enquanto umas não passavam de meras pasteleiras, com roda 26, uma só pedaleira e carreto 18, pesando para cima de 20 kg, outras, muito sofisticadas, que não pesariam mais de 8 kg, tinham roda 28, pedaleira dupla e carretos entre o 13 e o 25, autênticas penas.
Crónica publicada na edição de fevereiro do Jornal de Cá.