segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

25-Cenas da Feira dos Santos (II)

Cenas da Feira dos Santos (II)

Opinião de José Caria Luís


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Neste circo de bolso, havia, como adereços, uma chibata de marmeleiro, uma muito coçada manta lobeira e um desengonçado e lascado escadote. O cenário, amovível, estava a cargo dos espetadores, num círculo formado pelos próprios.
A cena do galo (cena I), a que não tive oportunidade de assistir, já fora. Agora, na cena II, era a vez da cadela-ursa careliana, que ziguezagueava, enquanto a macaca lhe saltava sobre o dorso, ora para cá, ora para lá. À voz do adestrador, que, em simultâneo, golpeava o chão ao som da chibata, incitando: “pula la macaca, salta la ursa”, aquilo não estava mal engendrado, não senhor. Eu e os demais putos arregalávamos os olhos, embevecidos pela bem sincronizada demonstração de arte por parte dos bichos. Agora, entrava-se na cena III. A cabra das Astúrias teria como função subir o débil escadote e, no topo, executar um qualquer número artístico, o qual, por motivo de força maior, não chegou a ser exibido. Pois foi! A cabrinha, nervosa, talvez pelo vozeirão áspero com que estava a ser tratada pelo seu adestrador, ainda subiu até ao cimo, mas, quando se aprestava para exibir a manobra seguinte, entalou uma pata nas gretas do esburacado tampo, cujo desfecho desatou numa infernal berraria que deixou toda a assistência perplexa, condoída e incomodada. O homem do bigode, acolitado pela partenaire, tentava, à bruta, desprender a patita do animal, mas debalde. Aquilo era operação delicada, a ser tratada com pinças, não por meio de puxões, como era o caso. O público, que não gostava do que estava a ver, desatou numa monumental assobiadela, reprovando a ação do adestrador. A indignação era tal que já havia alguns desordeiros da terra – os costumeiros – que se propunham amachucar o pelo a toda a troupe, piolhoso incluído. Foi então que, no sentido de evitar males maiores, os cartaxeiros António Aguadeiro, o Peito d’Aço e o Jaime Caria, afastaram o artista da triste cena e tomaram as rédeas da delicada operação. Enquanto o primeiro segurava o escadote e o segundo a cabra, o Jaime, de navalha de ponto-e-mola em riste, ia recortando, em tiras, a orla de madeira que envolvia a pata da artista. Libertado que estava o animal, foi este colocado nos braços do dono, perante um misto de aplausos e vaias, cada um com seu destinatário.
No rescaldo do triste espetáculo, que terminou logo por ali, ainda que a tríade tenha escapado ilesa, sob o ponto de vista físico, à ira dos espetadores, não se livrou de ouvir umas bocarras da geral, a puxar para o ordinarote. A velha, a tal Rosalina que nada fez durante todo o espetáculo, foi apelidada de bagaceira e remelosa; o rapazola, pedinchão da boina, foi mandado para a catadura do piolhame e desinfeção da mona, à base de Quitoso; ao gerente-mor e adestrador, valeu-lhe continuar com a cabra no colo, afagando-a. Foi esse gesto de ternura que lhe valeu de não ter apanhado umas valentes murraças naquele imundo bigode.
Para o ano havia mais. Mais uma Feira dos Santos, bem entendido, porque cenas como a fuga do touro, os choques do tio Porreiro nos carrinhos de choque, e a desdita da cabra das Astúrias, eram dispensáveis.
Crónica publicada na edição de janeiro do Jornal de Cá.

24-Cenas da Feira dos Santos (I)

Cenas da Feira dos Santos (I)

Opinião de José Caria Luís


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Afastada que estava a pérfida pretensão de apelidar a Feira dos Santos como “Feira dos Diabos”, com o touro já capturado de regresso à manada, de onde nunca devia ter saído, havia que tirar partido da calmaria agora instalada, usufruindo do muito que a feira ainda tinha para nos oferecer.
Agora, era ver a rapaziada, aquela que, como eu, com 10 paus no bolso, tivera permissão dos pais para deambular pela feira, sem ter de prestar contas a ninguém, à rédea solta, a desfrutar dos mais variados cenários. O carrocel era mais frequentado pelas meninas, porque os rapazes preferiam os carrinhos de choque. E maior foi o choque, quando me abeirei da autopista e dei com o meu tio paterno, o Chico Porreiro (só de alcunha), protagonizando uma acesa discussão com os demais utentes do recinto, condutores, ou pseudo, como ele. Para cúmulo, levava, como pendura, a sua filha de, apenas, 6 anos. Sentindo-se vítima de uma conspiração daquele pessoal que, através de choques e mais choques, em jeito de provocação – pensava ele – acometia contra o seu bólide, podia lá o homem – ele que fervia em pouca água – ficar quedo e mudo!… O tio Chico, que nunca, em momento algum, tinha pegado num volante, nem dos de brincar, entendeu que, tendo pagado uma sessão num daqueles carrinhos, tinha o sagrado direito de se recrear como muito bem entendesse, dando à viatura o ritmo e rumo que muito bem desejasse sem ser minimamente importunado. Nem que fosse ele o único a conduzir em contramão… Então, de cada vez que algum carro se esbarrava contra o seu, era o bonito! A rapariga chorava. Ele espumava, cerrava os punhos e, em alta gritaria, lançava os mais acutilantes e vernáculos impropérios ameaçando tudo e todos. Nem o funcionário do parque que, pacientemente, tentava corrigir-lhe os movimentos, escapou à fúria do Chico. Eu sentia muita pena da miúda, mas, vendo que não lhe podia valer, optei por me afastar da zona, não fosse ser vítima da fúria de algum desordeiro, ainda que, naquele caso, o desordeiro-mor era o tio Chico Porreiro.
Fui andando, bisbilhotando aqui e ali, e sempre que se vislumbrava um magote de gente, era sinal de que havia espetáculo. Achei-me, então, perante um círculo de povaréu, por entre o qual tive de esgravatar a fim de descobrir o que de tão interessante haveria no seu interior. E como se me afigurou que não se pagava nada, agachei-me e permaneci logo na primeira fila. Soube que a Cena I, a do galo, já tinha terminado. Mesmo assim, pelo aparato, dava para ver que valia a pena esperar pela cena seguinte.
Uma trilogia artística em que o pai, além de seboso e com fartos bigodes, era o adestrador; a mãe, espécie de ramelosa, seria a partenaire; o puto, p’raí com uns dez anos, além de manobrar a boina na ação de pedinchão, exibia um par de feijocas nasais e carregava com uma valente camada de piolhão de asa, que sacudia e coçava com sofreguidão, desde a testa até ao pescoço, passando pela cova do ladrão. Os adestrados eram: um galo que, sendo de penas, carne e osso, o dono dizia que era oriundo de Barcelos; uma cadela-ursa careliana; uma macaca da Malásia e uma cabra montês, oriunda das Astúrias.
Crónica publicada na edição de dezembro do Jornal de Cá.

23-Uma Feira dos Diabos (II)

Uma Feira dos Diabos (II)

Opinião de José Caria Luís


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Aos alucinantes gritos de “fugiu o touro!”, o pânico tinha-se instalado no terreiro e ruas contíguas. Havia pessoal que, desorientado, julgava fugir do boi, mas sem saber bem para aonde. Gente que fugia, só porque via outros a dar à sola e eram arrastados nessa debandada. A verdade, porém, é que a maioria nem sequer viu touro algum. Mas lá que o bicho tinha fugido, isso tinha.
Agora, era o bonito! Aproveitando o generalizado tresmalhar, alguns gabirus forasteiros, vindos sabe-se lá de onde, tirando partido da onda tumultuosa instalada, deram em saquear e ensacar tudo o que podiam. Nem as tendas dos ciganos escaparam, coitados.
Entretanto, para confundir ainda mais a situação, começaram a chover boatos da mais variada ordem: o João Preto, aconselhando calma, afirmava que o animal já estava em segurança, pois tinha sido laçado pelos bombeiros, mesmo em frente à montra do Zé Lanheiro. Uma tamanha falsidade, que o bombeiro Edmundo da Caraga se apressou a desmascarar. Segundo o Edmundo, o boi foi visto a caminhar junto à Fonte do Pingo-Pingo, rumando pela EN3, no sentido de Lisboa. Essa é que, para ele, Edmundo, era a verdade. Outro trapaceiro! Na verdade, uma hora depois, o Joaquim Domingos, vindo de Valada, trouxe a notícia de que o touro tinha sido laçado pelos campinos, perto da Quinta da Aramenha.
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Tendas rasgadas, bancas viradas do avesso, mercadoria surripiada e meia dúzia de feridos, era o saldo negativo apurado em primeira instância. Muito do pessoal que, num instinto de defesa, se tinha amotinado nas estreitas ruelas perpendiculares ao terreiro, começara a dispersar. Aqueles que se tinham refugiado nas tabernas do Paulino, Paveia, e Etelvino, bendiziam a hora em que o fizeram, pois não correram qualquer risco. Porém, o grupo situado mais a norte, que, em tropel, imbuído de um instinto de sobrevivência, se apressara a invadir a tasca do Serrazina, não teve a mesma sorte, porque o arcaico e antissocial taberneiro, numa atitude desprovida do mais elementar humanismo – talvez por ter escutado o slogan “fugiu o touro!” – expulsou o pessoal invasor, acabando por lhes fechar as portas na cara, trancando-as pelo interior. Por milagre, ou obra do acaso, o boi tinha rumado a sul.
Na manhã do dia seguinte, as coisas já estavam, de algum modo, estabilizadas. Como era tradição na Feira dos Santos, o espetáculo taurino nesse segundo dia era uma vacada. Ora, tendo em conta que os acontecimentos da véspera teriam sido uma lição para todos, seria de esperar que nesse dia tudo iria correr pelo melhor. Mas de uma coisa todos tinham a certeza: o touro não fugiria. Se palavras leva-as o vento, mais longe irá um grito. Eis senão quando, um grito, emanado de alguém que se encontrava perto do touril, ecoou no ar: “fugiu o touro”! Eh, diabo!… Não podia ser! Ah, pois! Tratando-se de uma vacada, quando muito, o que fugiria seria uma vaca. Foi quando um grupo de malta da terra deitou a mão ao gritão-mor, que tinha mais de golpista do que de aficionado e que nem sabia destrinçar a diferença entre um boi e uma vaca.
Assim, a “Feira dos Diabos” não passou de uma má intenção.
Crónica publicada na edição de novembro do Jornal de Cá.