segunda-feira, 24 de setembro de 2018

32-Quando a História passou pelo Cartaxo (III)

Quando a História passou pelo Cartaxo (III)

Crónica de José Caria Luís

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É verdade! Foi com um longo e apertado abraço que o General Humberto Delgado correspondeu àquela grande manifestação do cartaxeiro Carlos Batista Pego, reflexo de um misto de regozijo e angústia de um homem lavado em lágrimas. Mas eu, com os meus 14 anos, é que não atingia a razão de ser daquela dramática cena perpetrada por alguém saído da multidão, que se abeirou e abraçou efusivamente o General. Porém, ainda que sem saber o porquê, também me emocionei, não deixando de verter algumas lágrimas pelo sucedido.
Curioso, perguntei a alguns dos circunstantes, pessoas mais velhas que eu, o porquê de tal manifestação, mas a verdade é que eles sabiam tanto quanto eu, que era nada. Com receio de sofrer alguma retaliação ou castigo pela demora, e sem a mercadoria para apresentar na Recauchutagem, saí apressadamente sem, no entanto, ter conhecido o ónus da questão. Mesmo assim, ainda deu para ouvir os primeiros acordes vocais do Hino Nacional entoados pelo povo.
Nessa tarde, a mando do encarregado, voltei à drogaria do Carlos Pego a fim de levantar as tais latas de tinta. Desta vez encontrei as portas do estabelecimento abertas, mas, lá dentro, atrás de um longo balcão, estava um homem abatido, pesaroso, de olhar distante. Ele, Carlos Pego, pessoa relativamente alta, esguia e dinâmica, parecia estar, naquela tarde, ausente de tudo o que o rodeava. Foi o empregado Domingos Colegas – esse eterno aprendiz de toureiro – que, em silêncio, se aprontou a servir-me a encomenda. Já no armazém, que ficava no fundo da loja e onde estávamos fora do raio da ação auditiva do patrão, pedi ao Domingos que me explicasse a cena da manhã, ao que ele, em surdina, me relatou a situação em que se encontrava o genro do Carlos Pego, preso político algures numa masmorra da PIDE, creio que para as bandas de Caxias. Seria por isso que a esperança na almejada liberdade falava mais alto.
O Cartaxo seria, também, 16 anos mais tarde, cenário da passagem de uma extensa coluna de viaturas de combate da Escola Prática de Artilharia de Santarém, que, na madrugada de 25 de Abril de 1974, marchou sobre Lisboa, com a missão de ajudar a tomar pela força “O estado a que as coisas tinham chegado.” Palavras estas, entoadas pelo capitão Salgueiro Maia na preleção às sua tropas no Quartel de Santarém, pouco antes da partida rumo a Lisboa. Se a saída do Quartel se deu por volta das 03h30, então é bem provável que a passagem pela, então, vila do Cartaxo, tenha ocorrido por volta das 04h00 da madrugada.
O aparato seria grande, espetacular mesmo, mas, àquela hora, o sono profundo dos cartaxeiros era o que mais ordenava. E foi assim, meio em segredo, que uma coluna formada por 10 blindados, 12 de transporte, um jipe e mais uma viatura civil, onde viajava o capitão Salgueiro Maia, atravessava o Cartaxo a caminho da capital. O que lhes valeu – aos dorminhocos – foi o facto de os rodados serem todos de borracha, porque, imagine-se o estardalhaço em toda a vila se, acaso, em vez das maneirinhas e silenciosas rodinhas tivessem rolado altas, largas e ruidosas lagartas…
Assim, o Cartaxo também faz parte da História.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

31-Quando a História passou pelo Cartaxo (II)

Quando a História passou pelo Cartaxo (II)

Crónica de José Caria Luís

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Na sequência da crónica do mês de junho, o Cartaxo voltou a ter protagonismo no que concerne a factos políticos de algum relevo.
Quando, em 1958, o Chefe de Estado, general Craveiro Lopes, entrou em conflito com Salazar, deixou de ser proposto para um segundo mandato. No propósito de sair da situação de impasse, resolveu Salazar convocar eleições para a Presidência da República. A contrapor as candidaturas dos independentes Dr. Arlindo Vicente e general Humberto Delgado, Oliveira Salazar apresentou o seu candidato da União Nacional, o contra-almirante Américo Thomaz. Após o descalabro, pela razão da força, de umas pérfidas eleições, e porque o sistema vigente era do género do vira o disco e toca o mesmo, de forma a manter o figurino político de então nunca o sistema permitiria que aquelas eleições fossem livres. Esse golpe culminaria com a nomeação, por Salazar, do renegado ribatejano Américo Thomaz, para exercer o cargo de Presidente da República. O Thomaz, contrariamente ao que dele se dizia, não me pareceu ser burro, de todo. E eu, numa reunião em que estive presente, durante uma sua visita à Marina de Vilamoura, – o que transcreverei noutro local – pude testemunhar isso mesmo. No entanto, rezam as crónicas e testemunhos de então, que quem tudo comandava na retaguarda era o seu mentor Oliveira Salazar.
Essas eleições tiveram campanha e tudo. Com a diferença de os gastos dos independentes terem sido obtidos através de subscrições públicas e donativos particulares, ao contrário do representante da União Nacional cujas verbas foram suportadas pelo governo de Salazar, isto é, pelo Zé Povinho. Contudo, além dos muitos milhares de boletins de voto roubados pela PIDE, muitos outros nunca chegaram a certas zona do país, onde se supunha haver muito povo do contra.
Foi assim que, numa manhã de primavera de 1958, apareceu pelo Cartaxo, a fazer campanha, a comitiva do general Humberto Delgado. Eu, com 14 anos, nunca tal tinha ouvido, quanto mais visto. À época, trabalhava na Recauchutagem e, nessa qualidade, fui incumbido de ir comprar umas tintas à Drogaria do Carlos Pego, porém deparei-me com o estabelecimento encerrado. Pelo que me disseram, o dono teria ido para o ajuntamento, na Praça 15 de Dezembro. Nem acreditei, já que sempre ouvira dizer que o Salazar nunca permitiu ajuntamentos onde figurassem mais de 2 pessoas. Curioso, desci aquele pedaço da Batalhoz. E nem foi preciso avançar além do Manel d’ Água, para ver aquele mar de gente que ali estava sem eu saber porquê e para quê. No entanto, deduzi que aquela multidão é que seria o tal ajuntamento. Mas com que finalidade? Perguntei ao cartaxeiro Alfredo Cachorrinho o que se passava. Este, quase em surdina, explicou-me o fenómeno. Estava por aí a chegar o general Humberto Delgado, o assumido ribatejano que se propunha derrubar de vez o sinistro regime salazarista.
Humberto Delgado chegou, enfim! E eu vi-o ali, a uma dezena de metros. Ouvi gritos de vivas e vi lágrimas em muitos rostos, mas o Carlos Pego chorava convulsivamente agarrado ao general. Porquê? Fiquei chocado e confuso.
  • Artigo publicado na edição de julho do Jornal de Cá.

30-Quando a História passou pelo Cartaxo (I)

Quando a História passou pelo Cartaxo (I)

Crónica de José Caria Luís

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A fazer fé na Wikipédia, desde o séc. XII, muita gente ilustre terá visitado ou, simplesmente passado, pela zona que, hoje, confina o concelho do Cartaxo. De entre todos eles, elenco apenas alguns, como o fundador Afonso Henriques, Isabel de Aragão, D. Dinis, também Nun’Álvares Pereira, mais o general Junot, o compositor húngaro Franz Listz, Almeida Garrett e, até, imagine-se, o estadista Oliveira Salazar, que, numa das raras saídas de S. Bento, estagiou uns dias na Quinta da Cruz, propriedade do seu amigo Embaixador Teixeira de Sampayo. O advogado e dramaturgo Ramada Curto, inimigo figadal de Salazar, também foi contemporâneo do Presidente do Conselho no concelho, que não no mesmo sítio. Viveu na Quinta do Refúgio, de que era proprietário, porém a uma distância de uns 4 km, em linha reta, ineficaz para qualquer golpe à base de zagalote. Mas as ilustres figuras que demandaram o Cartaxo não se quedavam por aqui, como mais à frente se revela.
A antiga Feira do Ribatejo – assim chamada antes da nova denominação de Feira Nacional de Agricultura – considerada que foi uma montra, um evento nacional de relevo, sempre teve a apetência no aparecimento e no aproveitamento de figuras políticas, altas figuras de Estado. Mesmo no período em que não havia concorrência, era preciso vincar, marcar posição e mostrar que quem mandava ali (e aqui) eram eles. Como se compreende, os ditos cujos, não habitando em terras do Ribatejo, sempre que se deslocavam à velha Scalabis tinham que, em condições normais, fazer o seu périplo através de terras da então vila do Cartaxo. A viagem era curta. Até porque, ao longo do traçado rodoviário entre Belém ou São Bento e Santarém, não tinham as suas limusinas que esgrimir e fazer golpes de cintura para atravessar o coração (salvo seja) do Cartaxo, terra que chegou a ser uma linda vila ribatejana. À época, circulando numa EN3 sem rotundas, nem certos tipos de atafulhos que provocassem engulhos, a comitiva não tinha motivo para se deter, salvo se, por via de outros altos valores, tal se justificasse, como veio a suceder.
Naquele tempo, em meados dos anos 50, o Presidente da Câmara Municipal do Cartaxo era o eng.º João Carlos Dias de Castro Reis. Homem escorreito, de bom trato, com a figura ideal para ocupar tal função, era, também, uma pessoa de muito prestígio a nível municipal. Tirando partido do raro momento, não deixou o edil de apelar à presença das massas, a fim de emoldurar o cenário condizente com passagem pela vila do “venerando”, do “mais alto magistrado da nação”, como na altura era tratado o P.R., Américo de Deus Rodrigues Thomaz. Ele, Thomaz, um ribatejano de Ferreira do Zêzere, que, diz-se, tinha vergonha de o ser.
A manifestação e a lisonja local de apoio ao P.R. foram de tal modo efusivas que, no rescaldo de curto prazo, catapultou João Carlos Reis para Governador Civil de Santarém. Não sei se o concelho do Cartaxo chegou algum dia a tirar proveito do facto, mas, a meu ver, também não seria caso para isso.
Todavia, quer em 1958, quer em 1974, a História voltou a terras do Cartaxo, conforme se narrará na próxima edição.
  • Artigo publicado na edição de junho do Jornal de Cá.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

64-2017 Almoço Natal CT

63-2016 Almoço Natal CT

62-2015 Almoço Natal cm

58-Cimenterie de l' Oriental V1

55-v1 Edificios e Hangar

56-Marina de Vilamoura v1 cm

61-v3 CONVÍVIOS 2

60-Futebol v3

57-IV linha da Fabrica Cimento de Alhandra v1

59-III Linha Fabril Fabrica de Cimento de Souselas v0

sábado, 9 de junho de 2018

29 - O Corpo Discente do Concelho (IV)

O Corpo Discente do Concelho (IV)

Crónica de José Caria Luís

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Na E. I. C. de Santarém, o pessoal estava bastante disperso. Com cursos e anos distin­tos, horários muito diversificados em que todos tinham que esperar até à saída do último elemento das aulas, não era fácil conjugar a saída do grupo para o Cartaxo a horas decentes. Na verdade, nos tempos da bicla, sempre havia a possibilidade de dar o salto para a santa terrinha, onde nem sempre havia muito que fazer, salvo umas passagens, rua abaixo rua acima, à cata de algumas miúdas, ou deitar o olho no café local, onde algumas estariam a ver as séries Bonanza, Dr. Kildare, o Santo, ou o Homem Invisível. Ainda nos tempos da bicla, no mês de maio, a nossa sorte eram as novenas. Em andamento de contrarrelógio, desde Santarém, sempre dava para ver as meninas à saída do evento religioso. Mas só ver, e ao longe, porque, qualquer de nós, com a farpela toda encharcada pela sudação, nem a moçoila menos prendada da terra se agradaria de tais bacanos. Porém, desde que se optou pela carripana como transporte, tudo ruiu.
Como era, então, passado o tempo de espera na cidade de Santarém? Na falta de proventos, que nos coibiam de desfrutar de outras veleidades mais profanas, valiam-nos as passagens do carismático Clementino pelo adro da Escola. O tipo, trajando de avental e pantufas, qual serviçal noturna, transmitia uma carga energética ao pessoal que desatava tudo ao piropo e à malcriadice. Também o santareno Pimenta, sempre que por ali deambulava, fazia as delícias do pagode. O fulano tinha a mania do Jiu-Jitsu. No sentido de pôr o pessoal em respeito, ameaçava-nos com um golpe de Jiu-Jitsu 47. Pelos vistos, ele teria os seus golpes todos numerados. A propósito do Pimenta, o assalto ao paquete St.ª Maria tinha ocorrido na altura. Ainda não se sabia do seu paradeiro e, a esse propósito, muito se especulava. Então, esse facto também era argumento da malta para amofinar o Pimenta, dizendo: – Ó Pimenta, tu é que tens o navio escondido debaixo da cama! Vai mas é entregar o barco ao homem! – o homem, subentendia-se, era o Salazar.
Também algumas serenatas, previamente combinadas, entre a escumalha de alunos da Escola Industrial e Comercial; do Liceu Sá da Bandei­ra e da Escola de Regentes Agrícolas, tinham lugar na velha Scalabis. Os recontros, quase sempre a partir das 22h, ti­nham lugar no jardim, em frente à Camionagem Ribatejana, ou no Campo da Feira. Sendo este último local menos vigiado pela P.S.P., havia livre-trânsito e tempo para es­murrar e ser esmurrado. Mas eles gostavam!… Todos gostavam: tanto os que assistiam, como os que davam e levavam. Tanto assim era que, amiúde, repetiam a dose.
De uma vez, a anunciada estrela da E.I.C.S. para a peleja noturna era o meu colega Pazadas. Largos ombros, arcaboiço a condizer, pernas arqueadas e com um par de manápulas que metiam respeito, foi-lhe confiada a nobre missão de pôr na ordem um tal rufia da Escola Agrícola. Nós, fiéis seguidores do Pazadas, exultávamos com o tareão infligido ao lavrador. Foi tal a surra que até foram chamar o prof. Chambel, subdiretor da E.I.C.S. para, através da sua veia diplomática, pôr cobro ao descalabro.
Crónica publicada na edição de maio do Jornal de Cá.

28 - O Corpo Discente do Concelho (III)

O Corpo Discente do Concelho (III)

Crónica de José Caria Luís

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Avizinhava-se o ano letivo de 1962-1963. Nos anos anteriores, as deslocações noturnas dos discentes, em bicicleta, para Santarém, de ida e volta, não tinham sido fáceis. Duran­te os meses de invernia, por muito querer e garra juvenil que se pudesse alardear, o corpo não era de ferro. Sobretudo para quem, como eu, já tinha completado uma jornada de trabalho duro e mais uns 40 kms de bicicleta, ainda ter que enfrentar mais outros 40, em saga noturna, espécie de duplicado, a tarefa não era fácil. Urgia, pois, dar a volta à situação, concebendo um tipo de transporte alternativo. Formou-se, então, uma comissão ad-hoc cujo propósito seria entabular negociações com as diversas empresas de camionagem, daquelas que demandavam o Cartaxo, a fim de se conseguir, a preços módicos, um autocarro que nos garantisse alguma comodidade e, quiçá, mais segurança.
Após algumas démarches, e com a adjudicação a favor do “Vinagre, Lda”, entrou em funções um miniautocarro, creio que de 25 lugares se ntados, mas cujos assentos muito raramente sentiram o peso e o contacto do traseiro de certos energúmenos. É verdade. Sentados, era coisa que quase nunca acontecia naquela amálgama de gente mal formada e pior comportada, salvo raras exceções como, por exemplo, as duas meninas que tiveram a desdita de fazer parte dos passageiros daquela carripana pejada de tal deprimente turba. As alunas, colegas de viagem, Lurdes Pina e Alice Gaspar, devem ter-se arre­pendido mil vezes da hora em que decidiram anuir a tais companhias. As moças, a par do motorista Sr. Joaquim, eram das poucas pessoas bem comportadas dentro daquele aca­nhado meio de transporte. Que gente tão insubordinada e tão mal formada que lhes havia de sair na rifa. Desde cantilenas da treta, anedotas a roçar a boçalidade, pulos e urros, de tudo se viu. A Lurdes, sempre que passava por algum de nós nas ruas do Cartaxo, baixa­va a cabeça e passava-se para o passeio oposto. E eram as meninas filhas de soldados da GNR, senão… pior seria.
Além dos nomes já elencados na pretérita publicação do JdC, daquele grupo que se fazia transportar em bicicleta e que neste ano optara pela carripana, entraram, além da citadas Lurdes e Alice, o Rui Martins, o Tibério, o Galinha, o Rogério sapateiro, o An­tónio J. Baeta, o Zé dos Amiais, o Domingos Caramelo, o Ludgero Capeleiro, o Ângelo Pego e o Acácio. Mais um, menos um, éramos perto de um quarteirão de jovens, pela medida antiga.
Quando se muda de sistema nem sempre se colhem benefícios em todos os seus parâmetros. Senão, vejamos: o miniautocarro saía do Cartaxo por volta das 19h15, mas a par­tida de Santarém era às 23h00, o que condicionava sobremaneira o modus vivendi daquela juventude. De facto, no que concernia a eventos em sociedade, o leque era bastante limitado. A bola e o “Bonanza” eram ao domingo, mas, fora isso, além de um ou outro programa televisivo em que metia película com porrada de criar bicho, ou aquele bailari­co que os chicos-espertos da aldeia tinham programado para o sábado, com início às 20h00, o que, por razões óbvias, nos tinha sido vedado. Mas havia mais, como se comprova no capº IV.
Crónica publicada na edição de abril do Jornal de Cá.

27 - O Corpo Discente do Concelho (II)

O Corpo Discente do Concelho (II)

Crónica de José Caria Luís

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Mas como, em termos de bicicletas, a rapaziada não era muito apologista de cicloturismo, e recorrendo ao sangue na guelra próprio daquelas idades, quase todas as noites havia refregas, a bom pedalar, entre o Cartaxo e Santarém.
Certa tarde de julho, quando o grupo se encontrava em formação, na Praça 15 de Dezembro, junto à praça de táxis, a fim de rumar a Santarém, passaram pela zona, mesmo em frente aos nossos narizes, em bom ritmo, dois ciclistas do Águias de Alpiarça, que, pelo que se supunha, andavam a treinar, a fazer preparação para a Volta a Portugal, prova que se avizinhava. Um era o “independente” Amílcar Mateus, o outro, mais novo, ainda “amador”, tinha o nome ou apelido de Jacinto. Os dois ciclistas desceram a rampa do Augusto Ferreira, deram a volta pelo Cruz & Jarego, subiram pela EN 3, e voltaram a aparecer na Praça 15 de Dezembro, onde nós, de combinação feita, os aguardávamos. Julgo que os dois terão reparado no nosso grupo, já que, com toda aquela parafernália de bicicletas ali expostas, difícil era passarmos despercebidos. Vimos que o duo alpiarcenses tomara o rumo de Santarém, agora, era a nossa vez de o fazer. Por isso, seguindo-lhe a peugada, quando chegámos à Churrasqueira Ribatejana, já íamos colados na sua roda. Naquele momento, fomos recebidos com desdém, acompanhado de sorrisos cínicos, como quem diz: – Esperem, seus nabos, que já vão ver como é que se pedala!… Mas isso, a nós, putos imberbes mas vaidosos, não nos atormentava.
Na subida de Vila Chã, com um primeiro safanão, o nosso grupo abanou e, a partir daí, apenas quatro de nós os acompanhavam. Depois, no Alto do Vale, a mais um esticão, respondemos com a nossa união. Daqui em diante, embora em bom ritmo, tudo seguia sereno. Porém, passando pela Quinta do Líquis e entrando nas Padeiras, assim que a estrada começou a inclinar, o Amílcar deu uma forte sapatada, mas o primeiro a rebentar foi o seu benjamim Jacinto. A meio da subida já só dois de nós prestavam guarda-de-honra ao primeiro. No fim, em frente ao Posto da PVT, o sprint final teve três protagonistas, mas o Jacinto, tendo-se atrasado um pouco, já não assistiu à nossa chegada. Para nada! Peneiras da juventude…Não tivéssemos ilusões, porque pedalar 13 kms não se comparava a uma etapa em linha, de cem ou mais kms, mas lá que tínhamos a mania, isso tínhamos.
Lembro-me de muitos dos que compunham aquela comitiva. Dois eram pontevelenses, o António Silvestre e o Vasco Pego. O primeiro, talvez por ter mais arcaboiço, também tinha a bicicleta mais pesada de todas, mas enquanto o Vasco já vinha a pedalar desde Pontével, o primeiro, como era empregado do Dr. Rocha Homem, partia do Cartaxo. Depois, de Vale da Pinta, vinha eu, o Humberto e o Luís Gaia. Do Cartaxo, eram o Zé Florindo, o Zé Octávio, o Fernando Mil-Homens, o Rogério Fanã e o Jorge Xavier. Depois, mais à frente, no Vale de Santarém, tendo nós quase meio caminho andado, aguardavam-nos os Isenteiros Mesquita e Francisco Vassalo. O nosso colega Rui Fonseca teve o privilégio de se fazer transportar na sua “Famel Foguete”. Era bem mais fácil. E para o ano, como seria?
Crónica publicada na edição de março do Jornal de Cá.

26 - O Corpo Discente do Concelho (I)

O Corpo Discente do Concelho (I)

Crónica de José Caria Luís

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Estudar? Estudar para quê? Era esta a questão que, nas décadas de 50-60, aflorava, em permanência, nos vários círculos do concelho. Se havia algumas pessoas que, inconscientes pelo seu desconhecimento e alguma dose de sensatez, se colocavam à margem desta questão, deixando o tema aos entendidos, muitos eram aqueles que, com ou sem conhecimento de causa, faziam questão de opinar acerca da mesma. Enquanto uns defendiam que o ato da escolha de enveredar pela via estudantil era útil e benéfica, muitos outros argumentavam que isso do estudar era só para ricos e vaidosos. Argumentos eram os mais variados: enquanto uns quantos avarentos diziam que, “hoje em dia, com tanta gente a estudar, não vai haver colocação compatível para todos”, também havia quem advogasse que sim, senhores, o seu filho, apesar de ter que trabalhar de dia para ajudar às despesas da casa, também ele entraria na vida académica, ainda que fosse no ensino noturno. É verdade que a idade condicionava esta modalidade, já que as matrículas estavam vedadas a menores de 14 anos, mas se o rapaz, a trabalhar desde os 10 aos, já tinha dado provas de possuir arcaboiço, tarimba e espírito de sacrifício, também estaria apto a enfrentar a vida académica noturna, acumulando-a com a de pedreiro, aprendiz de oficina ou balconista.
Se os estudantes diurnos do Externato Marcelino Mesquita, do Liceu Sá da Bandeira e da E I C de Santarém, já estariam, de certo modo, encaminhados, os candidatos sobrantes também tinham que fazer pela vida. Não adiantava vociferar, lamentando a falta de posses ou qualquer outro óbice e, muito menos, sentirem-se marginalizados. E, no sentido de contrariar aquele quadro, foram aparecendo, aos poucos, uns voluntariosos, qual Mem Ramires, decididos a avançar sobre Santarém.
Na maioria eram caloiros, como eu. E enquanto um grupo se deslocava por meio das carreiras de autocarro, outro, achando que essa modalidade era incomportável para as suas posses, muniu-se de bicicletas a pedal e vai disto: Cartaxo-Santarém-Cartaxo. Chovesse, trovejasse ou geasse, os horários das aulas eram para cumprir. Havia cheias no Tejo? As águas, submergindo as vinhas na zona da Ponte da Asseca, já haviam subido meio metro acima do dorso da estrada de asfalto? E, isso, que tinha?!… Não havia um muro, ao longo do qual se podia fazer equilibrismo com a bicicleta às costas? Então, era mesmo esse o caminho. Faltar às aulas é que não.
Éramos uns 12 ciclistas, sendo 2 de Pontével, 3 de Vale da Pinta e 7 do Cartaxo. Pelo caminho, íamos arrebanhando mais 2 em Vila Chã de Ourique e outros 2 no Vale de Santarém. Havia, no entanto, 1 que possuía motorizada. Como naquelas idades (14-18) todos têm a mania da competitividade, senão de superioridade sobre os demais, as idas e vindas eram feitas em pedalada a alta rotação. O protótipo das máquinas diferia bastante: enquanto umas não passavam de meras pasteleiras, com roda 26, uma só pedaleira e carreto 18, pesando para cima de 20 kg, outras, muito sofisticadas, que não pesariam mais de 8 kg, tinham roda 28, pedaleira dupla e carretos entre o 13 e o 25, autênticas penas.
Crónica publicada na edição de fevereiro do Jornal de Cá.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

25-Cenas da Feira dos Santos (II)

Cenas da Feira dos Santos (II)

Opinião de José Caria Luís


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Neste circo de bolso, havia, como adereços, uma chibata de marmeleiro, uma muito coçada manta lobeira e um desengonçado e lascado escadote. O cenário, amovível, estava a cargo dos espetadores, num círculo formado pelos próprios.
A cena do galo (cena I), a que não tive oportunidade de assistir, já fora. Agora, na cena II, era a vez da cadela-ursa careliana, que ziguezagueava, enquanto a macaca lhe saltava sobre o dorso, ora para cá, ora para lá. À voz do adestrador, que, em simultâneo, golpeava o chão ao som da chibata, incitando: “pula la macaca, salta la ursa”, aquilo não estava mal engendrado, não senhor. Eu e os demais putos arregalávamos os olhos, embevecidos pela bem sincronizada demonstração de arte por parte dos bichos. Agora, entrava-se na cena III. A cabra das Astúrias teria como função subir o débil escadote e, no topo, executar um qualquer número artístico, o qual, por motivo de força maior, não chegou a ser exibido. Pois foi! A cabrinha, nervosa, talvez pelo vozeirão áspero com que estava a ser tratada pelo seu adestrador, ainda subiu até ao cimo, mas, quando se aprestava para exibir a manobra seguinte, entalou uma pata nas gretas do esburacado tampo, cujo desfecho desatou numa infernal berraria que deixou toda a assistência perplexa, condoída e incomodada. O homem do bigode, acolitado pela partenaire, tentava, à bruta, desprender a patita do animal, mas debalde. Aquilo era operação delicada, a ser tratada com pinças, não por meio de puxões, como era o caso. O público, que não gostava do que estava a ver, desatou numa monumental assobiadela, reprovando a ação do adestrador. A indignação era tal que já havia alguns desordeiros da terra – os costumeiros – que se propunham amachucar o pelo a toda a troupe, piolhoso incluído. Foi então que, no sentido de evitar males maiores, os cartaxeiros António Aguadeiro, o Peito d’Aço e o Jaime Caria, afastaram o artista da triste cena e tomaram as rédeas da delicada operação. Enquanto o primeiro segurava o escadote e o segundo a cabra, o Jaime, de navalha de ponto-e-mola em riste, ia recortando, em tiras, a orla de madeira que envolvia a pata da artista. Libertado que estava o animal, foi este colocado nos braços do dono, perante um misto de aplausos e vaias, cada um com seu destinatário.
No rescaldo do triste espetáculo, que terminou logo por ali, ainda que a tríade tenha escapado ilesa, sob o ponto de vista físico, à ira dos espetadores, não se livrou de ouvir umas bocarras da geral, a puxar para o ordinarote. A velha, a tal Rosalina que nada fez durante todo o espetáculo, foi apelidada de bagaceira e remelosa; o rapazola, pedinchão da boina, foi mandado para a catadura do piolhame e desinfeção da mona, à base de Quitoso; ao gerente-mor e adestrador, valeu-lhe continuar com a cabra no colo, afagando-a. Foi esse gesto de ternura que lhe valeu de não ter apanhado umas valentes murraças naquele imundo bigode.
Para o ano havia mais. Mais uma Feira dos Santos, bem entendido, porque cenas como a fuga do touro, os choques do tio Porreiro nos carrinhos de choque, e a desdita da cabra das Astúrias, eram dispensáveis.
Crónica publicada na edição de janeiro do Jornal de Cá.