quinta-feira, 16 de novembro de 2017

22-Uma Feira dos Diabos (I)

Uma Feira dos Diabos (I)

Opinião de José Caria Luís

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Naquele ano, em meados da década de 50 do séc. XX, a Feira do Cartaxo, contrariando o propósito de honrar e fazer jus ao pomposo e solene título de Feira de Todos os Santos, tal como lhe fora conferido pelos seus fundadores, no longínquo séc. XVII, acabava, agora, de sentir a torpe ameaça de ser bruscamente apelidada de “Uma Feira dos Diabos”.
De facto, analisando friamente as rocambolescas peripécias ocorridas no recinto da feira, e pese embora o mediano grau de gravidade de que se revestiram algumas situações, também não foi nenhuma catástrofe que se abateu sobre o evento que justificasse tal radicalização… Todavia, não fora a tenacidade e o bairrismo do cartaxeiro comum, ao não permitir que uma meia dúzia de supersticiosos, aglutinados a um grupelho de maldizentes locais – os do costume – viessem a terreiro infernizar a feira, invertendo-lhe o nome, não sei, não!
O dia 1º de novembro, contrariando o Borda d’Água, amanheceu soalheiro. Por volta das 11h00, o arraial da feira começava a ficar bem composto; inclusive já se denotavam enormes manchas de forasteiros, daqueles que, ao invés de ver o fundo à panela, preferiam observar o testo. Por isso, foram cedo. Os comerciantes, augurando um grande dia de negócio, esfregavam as mãos de contentes, parecendo estar a contar com o ovo no dito da galinha. Porém, entre augurar e agoirar há uma ténue linha que, dependendo do prisma, tanto pode cambar como descambar. E foi esta mesmo que aconteceu.
À época, a tourada era o ponto forte da Feira dos Santos. Quase sempre com um bom cartaz tauromáquico, as muitas dezenas de bandeiras que simbolizavam o espetáculo eram hasteadas, de véspera, lá no alto, na cimalha periférica da praça. Mas, para haver tourada, tinha que haver touros. Estes, escolhidos como elite de entre uma apurada raça numa manada da lezíria ribatejana, ao contrário dos seus futuros lidadores, davam entrada pela portinhola dos fundos. Era, pois, suposto que todo o plantel bovino tivesse entrado pelo mesmo buraco, mas tal não sucedeu. Negligenciando as mais elementares regras de segurança, quer o motorista quer o abegão, mandaram as regras e a sensatez às malvas, e vai de deixar uma descomunal fresta entre o camião e o hall do touril. O resto, não será difícil adivinhar: um touro mais esbelto e… rua com ele.
O animal, pondo-se ao fresco na frescura da liberdade matinal, mas espavorido pela gritaria dos circunstantes, encetou uma curta corrida e estacou em frente a um carrocel. Deteve-se por ali uns momentos, talvez para saudar os seus parentes, ruminantes ou não, tornados bandas de bancos de assento, onde, mais à tardinha, as meninas iriam pousar os seus predicados. Agora, era o bonito! A loucura tinha-se instalado por todo o terreiro da feira. O pessoal, em alta berraria, gritava: “Fugiu o touro! Fugiu o touro!”… Juravam alguns profetas da desgraça a quem o touro, num esgar, já havia baforado o traseiro, que aquilo era mesmo o Dia do Juízo Final. Um boidemónio, onde até os campinos fugiram e nem as tendas dos ciganos escaparam. Uma razia, à cornada.
E o touro? Onde estaria agora o touro?
Artigo publicado na edição de outubro do Jornal de Cá.

21-Os Bailes dos Pagãos (II)

Os Bailes dos Pagãos (II)

Opinião de José Caria Luís


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Naqueles bailes do Pátio das Comédias, havia pessoas que tinham objetivos muito diferenciados: as imprescindíveis moçoilas – sem as quais não havia dança – estavam ali para se divertirem, fazendo-o, por vezes, à custa do alheio, a quem davam tampa a cada passo; as mães, suas protetoras – que os rapazes abominavam e dispensavam de bom grado, até porque, desse ponto de vista, elas só ali estavam para atrapalhar – assumiam a incumbência de serem as mesmas a escolher o rapaz que havia de enlaçar a sua menina no rodopio dançante; os atiradiços rapazolas da vila, das aldeias e, também, da cidade de Santarém, alguns já com largo cadastro, também não estavam isentos de mácula; os neutrais, olheiros que, apenas e tão-somente, vão para ali desfrutar das vistas e beber o seu copito sem se meterem com ninguém, seriam dos mais sensatos presentes na soirée; por último, os pais daquelas donzelas, que serão analisados mais adiante.
Como seria de esperar, nos bailaricos de província em que todos se conheciam, não havia espaço para grandes veleidades por parte da rapaziada. Com o rock e o twist ainda em fase muito embrionária, era lançada pelo conjunto uma série dançante de três números de modinhas mais popularuchas, estilo Mário Simões, e certas brasileiradas, que alternavam com uns românticos slows e boleros das mais variadas origens, como do Nat “King” Cole; Platters e Domenico Modugno. Quer isto dizer que, nestes últimos ritmos, por demais suaves, o par dançante, cujo alvo era o rapaz, estava permanentemente exposto aos olhares de um inexorável júri composto pelas mães das meninas, que não perdia pitada do que se estava a passar na pista. Mas, até aqui, tudo bem! As velhas não eram néscias: se o par da filha fosse filho de algo e tivesse a fama, ao menos, de possuir umas vinhas no campo, terras na charneca ou casas no bairro, as mulheres, não só fechavam os olhos a algum desaforo moral do rapaz, como ainda eram capazes de piscar o olho à filha, incitando-a à luta. Se, ao invés, o rapazola tivesse boa figura, mas como pecúlio apenas exibisse uma viola velha e um crucifixo, não mais seria par para a sua menina. O pior era quando, em vez das mães, eram os pais a fazer o papel de jurados… Depois de bem bebidos, armavam-se em guardiões das donzelas não se coibindo de confrontar, verbal e fisicamente, os rapazes que, momentos antes, faziam par com as suas protegidas, prejudicando o espetáculo e a harmonia que devia reinar na verbena. Já com a mente toldada pelos vapores do éter, chegavam, de modo brusco, à fala com o rapazola, acusando-o de querer abusar da sua menina (algumas já com mais de 25 anos). Houve uma (só uma?) cena no Bar em que o latagão do velho, tipo para 1,90m, pegou o rapaz de 17 anos pela gola do casaco, levantou-o em peso e disse: – Ó pá! Se eu te apanho a balhar naqueles despropósitos com aquela rapariga, que é nhê filha, levas uma solha no focinho que nem sabes de que terra és!
A moçoila, que observara a bruta cena à distância, aproximou-se, passou por mim e, num esgar, com um encolher de ombros, disse: – Ora, deixa lá isso, pá! Ele diz isso a todos os que dançam comigo…
Artigo publicado na edição de setembro do Jornal de Cá.

20-Os Bailes dos Pagãos (I)

Os Bailes dos Pagãos (I)

Opinião de José Caria Luís


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Decorria a segunda metade da década de 50. Neste período, pese embora o vagaroso andamento, quando não inércia, com que se aceitava e aderia a novas tendências, fomos, paulatinamente, envolvidos pelas famigeradas ondas do rock-and-roll e da minissaia. O Bill Haley, com o seu Rock Around the Clock, cujo ritmo tirava qualquer puritano do sério, já era ídolo; Elvis Presley, acabado de chegar, ia-se impondo, mas a grande bomba, que estaria por aí a rebentar, seria o produto concebido por Mary Quant, a provocante minissaia. Não tardaria a fazer furor, também, no Cartaxo. Mas, aqui, atenção: o ritmo com que o fenómeno foi aceite no concelho, quanto a mim, terá sido demasiado lento. Os pais que, de um modo geral, não permitiam que as filhas namorassem antes dos dezoito anos, não iriam aceitar que as divas andassem, rua acima rua abaixo, a exibir as pernaças ao gáudio e dentuça arreganhada do pagode. Nem pensar! Eram dois dedos abaixo do joelho… e chegava. Pelo exposto, dá para perceber que estávamos, ainda que de forma embrionária, ao virar da esquina para um novo conceito de vida.
Os bailes que, até então, eram abrilhantados pelo jazz da terra, pelo acordeonista regional, ou, até, por um qualquer desenrasca tocador de gaita-de-beiços, ganharam um outro elã. A marcha, a valsa, o slow e o chá-chá-chá, nunca seriam extintos de qualquer repertório, mas iam passando de moda. O rock e o twist tomaram-se na primazia na nova geração. Assisti, nessa época, nesse virar de página, a conflitos de interesses geracionais, a gostos antagónicos tais que, quando a discussão azedava, virava tudo ao sopapo.
Começaram, então, a surgir nos grandes centros urbanos, alguns conjuntos ligeiros, em forma de rockeiros, cujos elementos eram idolatrados pelo público mais jovem, mas no concelho essa moda ainda era uma miragem. Cá pelo burgo, bastava-nos que o baile fosse abrilhantado pelo “Boa Noite” ou pelo “Palmo e Meio” e já era garantia de casa cheia, o que era bem bom. Com repertórios muito semelhantes, a puxar para umas marchinhas, uns slows e umas brasileiradas, era tudo o que nos podiam oferecer. Ao invés, quando se tratava de acordeonistas como o Paixão, a Lisete Ramos, a Júlia Bicha ou a Liberdade de Oliveira, as entradas eram bem mais baratas, mas, paradoxalmente, a afluência e a consequente exploração eram bem menores.
Nas freguesias, embora com algumas nuances, os bailes tinham lugar nas instalações da “Música” ou da “Bola”. No Cartaxo, estava a nascer o fino Ateneu, mas já existiam a “Música” e o Pátio das Comédias. Nesta verbena, por ser ao ar livre, os bailes eram realizados na época de verão, à noite e eram quinzenais. Em noites de enchente, julgo não exagerar se disser que o recinto teria uma assistência a rondar o meio milhar de pessoas.
Definindo o Pátio das Comédias, direi que era o estereótipo do baluarte da originalidade da convivência ribatejana. Ali afluíam pessoas das mais variadas origens e segmentos sociais, onde, com um copito a mais, se gerava uma espécie de Babel em ponto pequeno. A cada comportamento intempestivo, uma resposta com duplo impropério.
Crónica publicada na edição de agosto do Jornal de Cá.

19-Charlas Linguísticas

Charlas Linguísticas

Opinião de José Caria Luís


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Com o passar dos anos e com o ego mais amadurecido, tendente a puxar para uma mentalidade de pré-adolescente, o receio que, em tempos, havia manifestado acerca do modo como o pessoal do concelho se entenderia e comunicava entre si, já não fazia grande sentido, acreditava eu. Ainda que não houvesse uniformidade de pronúncia a nível concelhio, desde que o pessoal estivesse imbuído de um espírito de colaboração, o óbice seria facilmente ultrapassado. Ainda assim, o que nos valia era a fonética e a matemática não andarem de braço dado, senão, estando Vale da Pinta e Pontével separadas por 2 km, e sendo a disparidade linguística abissal, se a proporcionalidade fosse direta, a 20 km teríamos uma nova Torre de Babel.
Agora, cada mancebo, oriundo das freguesias e lançado no mercado de trabalho da vila, levava consigo, como currículo linguístico, a fonética da terra. Alguns deles, os menos prendados, além desse abstrato predicado, iam apetrechados com uma gamela, uma enxada ou uma foice; os de sorte mediana envergavam um fatinho adquirido num tendeiro no mercado mensal, ou, apenas, um fato-macaco de zuarte, se o destino fosse a área da ferrugem. Tudo dependia da especialidade onde iriam ser inseridos.
Concentrando-se no Cartaxo a base do núcleo empresarial, que havia de albergar a maioria daqueles imberbes rapazes, muitos cartaxeiros, tirando partido dessa circunstância, defendiam o princípio de que o ónus da adaptação às “regras de bem falar” era problema dos forasteiros. Lá no seu conceito, o povo da vila teria um discurso mais padronizado com a língua de Camões e, por isso, o único que, em todo o concelho, estaria habilitado a usá-la com fidelidade. Quem não tivesse aprendido antes, também não podia usufruir de quaisquer veleidades. Portanto, que se chegasse à frente e se atualizasse. Era assim, como o ter que aprender a falar à moda do Cartaxo…
Dei, então, comigo a confrontar-me com alguns mestres da linguística local. Eles interrompiam-me, amiúde, e explicavam-me certas matérias gramaticais, das quais nunca tinha ouvido falar na escola, nem visto insertas em quaisquer livros. Mas, de cada vez que eu recalcitrava, por desacordo com tais charlas linguísticas, levava uns abanões de orelhas, no sentido de baixar o ego e ter que reconhecer que, ali, quem mandava eram eles. Eu podia lá ficar calado, quando eles invocavam o Manuel da Machada, em vez de Manuel Machado; o Zé da Neta, no lugar de Zé Neto; o Luís da Pedreira, em vez do Luís Pedreiro; o Zé da Boina, por Zé Bono ou o Zé da Benta pelo Zé Bento… Eu nunca tinha ouvido tais dislates. Em Vale da Pinta ou em Pontével, por exemplo, havia o hábito de identificar um da terra pelo seu nome próprio, seguido do nome do seu progenitor, como: Zé da Gertrudes; Xico da Alice; Carlos da Elvira; Carlos do Abílio; João da Leopoldina; Zé da Aida, ou o António da Rosinda… Mas, nestes casos, ao invés do Cartaxo, não se deturpava o apelido ao pessoal. Era isto que eu, pequenote, argumentava para enfrentar os da vila, porém os meus regentes, em vez de reconhecimento, retaliavam corrigindo-me a atitude por meio de sopapos.
Artigo publicado na edição de julho do Jornal de Cá.