sábado, 8 de julho de 2017

18 - Cartaxo, concelho emblemático (II)

Cartaxo, concelho emblemático (II)

Opinião de José Caria Luís


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Em meados de 50, já a nouvelle classe média tinha o seu lugar onde praticar o culto, a bom recato. E se, por distração ou preconceito, um destes utentes pedisse um café frio em vez de uma bica, também não se ia embora sem ser servido. Quer o Picoto, quer o Porfírio ou o Miranda, todos sabiam o que a casa gastava. No concorrido “café” Miranda – onde nunca se pôs uma cafeteira ao lume – além do espaço principal, estilo “foyer”, até tinha um estreito corredor que conduzia a um recatado cantinho dos fundos, onde, através de exercícios e exéquias pescoceiras se esqueciam as agruras da vida ou a conta do merceeiro.
O dito acanhado corredor tinha duas funções: a de conduzir o freguês ao local da cerimónia, sem ter que perguntar o caminho a ninguém e, no retorno, alinhá-lo entre paredes, garantindo ao fulano a máxima segurança até à porta da rua. Depois, aí… Bem, aí já o animado freguês, que entrou mudo, acabrunhado, e saiu cantando e rindo, ficava por sua conta e risco. Mas, para obviar males maiores, podia-se sempre contar com a colaboração e proteção do polícia-de-dia, noite neste caso. Tanto o guarda Correia, como o Joaquim da Silva (Marreco) ou o subchefe Matos, cada um a seu tempo, não deixariam de proceder ao encaminhamento dos utentes a bom porto, não fossem eles da Segurança Pública. O pior era quando o freguês era de Vale da Pinta; estes, que não gostavam muito de aparecer nas tabernas da terra, preferiam ir enfrascar-se para o Miranda. Era no Cartaxo, sempre tinha outra classe. Contudo, o pessoal das freguesias tinha um handicap, já que o pelouro era pertença da GNR e esta só trabalhava de dia.
Sendo o Cartaxo uma terra rica, onde as classes: média, remediada e menos afortunada, já tinham o seu setor, não fazia o menor sentido ostracizar os mais abastados. Estes, porém, antecipando-se, já tinham os seus oratórios. De facto, o “Monumental” e o “Campinos” já eram pioneiros. De entre os frequentadores do primeiro, contava-se professores, médicos, solicitadores, alguns comerciantes e, também, os emplastros. Eram estes uns fulanos, que, no intuito de se misturarem com os mais finos, pensando ser o modo de subirem de estatuto, vestiam fato preto, camisinha branca, de popelina, bem engomada, tudo no estilo de profissão liberal. Porém, bastas vezes, alguém se esquecia de colocar a roupa na barrela, o que, retirando asseio ao conjunto, acabava por lhe conferir brilho. Àquela casaca, por demais coçada na gola, o que lhe valia eram as cotoveleiras, que sempre ajudavam na prevenção.
Falando do “Campinos”, pudemos testemunhar, que, além dos industrio-comerciais irmãos Dias (António e João) e do José Manuel Santos, também o veterinário Dr. Martins e seu filho eram frequentadores desta unidade. Outras figuras, mais ligadas à alta agricultura, onde se destacaram os vitivinicultores Alfredo Leal, Francisco Ribeiro “Minhoto” e o seu feitor Travessa, Fernando Inverno e Manuel Henriques, também eles foram fiéis frequentadores do “Campinos”.
E, mais culto menos culto, era assim que as diferentes classes se distribuíam pelas capelinhas do Cartaxo.
Artigo publicado na edição de junho do Jornal de Cá.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

15 - O Cartaxo Empresarial (I)

O Cartaxo Empresarial (I)

Opinião de José Caria Luís


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Naquela época, na transição dos anos 50 para os 60, por muito mal que se diga das condições de vida das populações, o Cartaxo era uma terra rica. Havia de tudo. O comércio proliferava, a indústria também. Vocês, gente mais nova, fazem lá ideia da dimensão que o Cartaxo atingiu neste período!… A rua Batalhoz, a praça 15 de dezembro e suas transversais estavam pejadas de lojas de fanqueiro, sapatarias, móveis, louças, ourivesarias, drogarias, ferragens, latoarias, farmácias, mercearias, tabernas e barbearias. Era um Mundo. Havia apenas um Banco, mas, pelo que se sabia, havia cash.
Depois, em ruas mais periféricas, havia canteiros, serrações, segeiros e, até, albardeiros e ferradores, vejam bem. Mas o Cartaxo também tinha duas olarias e mais os bancos de torneiro-mecânico do Zé Broa, do Chico Patrício e do António Miguel; isto além dos subsetores da Asal e do Cruz & Jarego, que serão referenciados mais adiante, numa próxima crónica. Uma oficina de torneiro de madeiras também fazia parte do património cartaxense.
Casas de bicicletas, com venda e, ou, reparações, lembro-me do Portela, do Adelino Calarrão, do Gato Bravo e do José Maria Nicolau, estas no Cartaxo. Mas também as havia em Vale da Pinta, em Vila Chã de Ourique e em Pontével. O Alfredo Lúcio, representante, no Cartaxo, das italianas Gilera e Lambretta, também era agente da Gazcidla.
Os táxis eram uma outra boa fonte de rendimento local. Os permanentes tiveram sempre clientela. Lembro-me dos saudosos: Ernesto Balrreira, Meia-Unha, Afonso Pataco, Porto-Artur, Joaquim Lobo e o Seabra. Até o Lúcio, o do Café, fazia os seus biscates, nas raras vezes em que era solicitado. É que o povaréu tinha medo de andar com ele, tal era a velocidade que imprimia ao seu bólide em curvas e contracurvas, naqueles trajetos de maus caminhos entre as aldeias e o Cartaxo. O asfalto já se anunciava, estava quase a romper, mas, por enquanto, apenas meia dúzia de ruas no centro da vila tinham esse privilégio.
Transportes públicos que, na época, faziam escala no Cartaxo, eram: Vinagre, Ribatejana, J. Clara & Filhos, Mira d’Aire, Capristanos e Viação Cernache.
Ainda dentro da área dos transportes, o que hoje seria visto como um processo arcaico de os fazer, na época isso era tido como uma coisa normal. Com os itinerários Cartaxo-Santana-Cartaxo e Cartaxo-Setil-Cartaxo, havia uma galera, puxada por dois cavalos, conduzidos desde a boleia pelo operador Hermínio que, quase sempre, tinha a companhia de um dos membros do casal de proprietários. Era o transporte privativo de mercadorias entre aquelas estações da CP e o Cartaxo. Uma vez em depósito no armazém, que se situava na rua que, agora, se chama de Combatentes do Ultramar, ou eram levantadas no local, ou recebidas ao domicílio, com porte acrescido.
Havia que contar ainda com os transportes feitos pelos camiões dos unipessoais José Valada, Renato Caria (Tracar), João Chibico, José Matos e Chico da Macaquinha. Cada qual na sua dimensão e estatuto.
Nas aldeias, o transporte de produtos agrícolas era mais à base de carroças, puxadas por gado muar.
Artigo publicado na edição de março de 2017 do Jornal de Cá.

17 - Cartaxo, concelho emblemático (I)

Cartaxo, concelho emblemático (I)

Opinião de José Caria Luís


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No que concernia ao emblema da terra, era um mundo de adegas de vinhos e seus derivados. Os armazéns do Joanicas; Nicolau, Rosa & Piedade; Vieira & Machado; Cunha 13; Augusto Ferreira; J. Jacinto Ferreira; Joaquim Rato; Francisco Bernardino Nogueira; Mateus Rosa; o 3 Cunhas, e a Adega Cooperativa, eram disso testemunho. Um verdadeiro arsenal vinícola, no que à comercialização do néctar cartaxeiro, por grosso e atacado, dizia respeito.
Em menor escala, porém, referenciemos os estabelecimentos de venda a retalho, a que chamavam tabernas, tascas ou baiucas, em cujos santuários, tanto o cartaxeiro (da vila e freguesias) como os visitantes, na forma de grupos excursionistas, saciavam a sede, a sua gula vinícola. Alguns desses emblemáticos santuários eram mesmo de visita obrigatória. Com ou sem velinhas acesas, qualquer ribatejano que se prezasse teria, forçosamente, que conhecer, ao vivo e a cores de tinto, aqueles paraísos beberrónicos, sob pena de excomunhão. Se não, vejamos: o Ramos; Júlio Caioeu; Marau; Irmãos-Unidos; Toni; Marmeleira; Serrazina; Paulino; Paveia; Etelvino; Zé Inácio; Zé da Horta e o Meia-Orelha eram os maiores baluartes dessa contemporaneidade e não deixavam ninguém indiferente. Nem sequer os que se autodenominavam abstémios se abstinham do fenómeno que os rodeava. Chegou a arribar ao Cartaxo gente vinda de longe, só pela fama (má) de que gozava a taberna do Serrazina. Porém, alguns incautos, se não soubessem a senha, entravam a 10 e saíam a 100, à frente de vassourada. Bastava pedirem bis, e estava o copo entornado.
Pela calada da tarde, era frequente vislumbrar uma silhueta, de rosto dissimulado por debaixo do lenço, qual hijab, de alcofa pela mão e, dentro desta, um menino de cor escura, aparentando 7,5 dl; eles, os maridos, mais robustos e fazendo alarde da valentia, aproveitavam a noitinha para transportar a mercadoria no bucho, contra choques e baldões, para não refermentar. De tão bairristas, e de modo a fazer afirmar as potencialidades da terra, era frequente observar aqueles rituais de peregrinação em muitas ruelas, largos e becos da vila, como, por exemplo, o Escondidinho, o Largo dos Pretos, o Largo dos Palermas, a Travessa da Senhora ou mesmo o Bairro do Paixão. Mas não se julgue que estas peregrinações eram exclusivas da sede de concelho!… Nas aldeias, não obstante serem meios pequenos, ninguém queria ser deixado para trás, correndo o risco de passar por saloio. Tudo alinhava, minha gente! Porque, salvo raras exceções, os seus frequentadores mais fiéis eram gente do povo.
Desde o início da década de 50, que os estratos sociais do Cartaxo passaram a contar com três patamares. Os ricos e os pobres, que, durante muitas décadas, abriam e fechavam o leque social de duas folhas, assistiram ao ampliar daquele para três. Isso, por força da entrada dos recém-nados da classe média, coisa que antes não existia. E, porque revolução puxa evolução, demos connosco a assistir à abertura de: “Café Picoto”; “Lúcio”; “Porfírio” e “Miranda”. Eram os coutos da nouvelle classe: a média burguesia.
Crónica publicada na edição de maio do Jornal de Cá.

16 - O Cartaxo Empresarial (II)

O Cartaxo Empresarial (II)

Opinião de José Caria Luís


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A par das largas dezenas de estabelecimentos que emolduravam toda a zona central do Cartaxo, e dentro de um outro ramo, algo fino, lá estavam, de portas e montras viradas à Batalhoz, as escolas de costura e bordados, representando as marcas Singer, Husqvarna, Oliva e Pfaff. Não entrava nelas quem queria. Na verdade, não eram precisas habilitações maiores que a 4ª classe, mas aquelas que não fossem dotadas de boa figura e porte, ai não entravam, não! Também o excesso de exsudação era tido em conta, pela negativa, já se vê. Quem fosse atreita a transpiração, que o fizesse em casa.
Falando de costura, não se pode deixar de referenciar os ateliers da Estini, da Esmeralda, do Catela, do Pindelo, da Gertrudes Pita e da Isabel Nicolau. Eram autênticos ninhos de formação das raparigas, muitas delas ainda teenagers. Foram casas que marcaram uma época. Era ver a rapaziada das oficinas que, sacrificando a, já de si curta, hora de almoço, comiam com sofreguidão só para arranjar uns minutos que lhes permitissem o pavoneamento pelas redondezas, quase sempre de bicicleta, para deitarem o olho às costureirinhas que por ali trabalhavam. Eles viam, mas também queria ser vistos. Dava para ver que as pomposas popas, com o risco muito alinhado, desde a testa ao cocuruto, tinham sido trabalhadas a preceito nos minutos que antecediam o romântico périplo.
Ao cair da tarde, terminada que estava a jornada laboral e arrumadas a agulhas e dedais, quem por ali deambulasse e estivesse minimamente atento, assistiria a um autêntico desfile da saída das meninas, também elas bem penteadas a rigor, melhor brunidas e com uma descarada, mas encenada sobranceria, com desdém, como convinha, para atrair os olhares dos rufiões. Pela rua Batalhoz acima, ou abaixo, segundo as coordenadas do azimute do destino de cada uma. Dava gosto vê-las, quais formiguinhas, à procura de rumo.
Todavia não se pense que, pelo facto de elas conviverem, no dia-a-dia, com a média costura, estavam em regime de cumplicidade com esta… A umas quantas só lhes faltava dormir à noite, com os vestidos de dia. Tanto assim era que, certa vez, quando, vindo do trabalho, passei na estreita Travessa da Senhora, fui insultado por uma atrevidota, de um grupo de três moçoilas da vila, que me atirou: – Olha, aqui vai mais amostra da miséria de carrapatoso!
Perante tal afronta, eu, que não era um puto dócil, respondi: – Miséria és tu, que andas sempre com o mesmo vestido!
No dia seguinte, voltei a passar naquela calçada e dei de frente com a mãe da Leta, a tal provocadora. A velha, em gritaria, como era timbre daquela gente, disse, então, para uma das suas vizinhas: – Já estou a ver, que tenho que comprar um vestido à minha Leta! Este carrapatoso diz que ela anda sempre com o mesmo vestido!…
Ah, pois! Melhor seria que o fizesse, porque, já sem cor e a ganhar brilho, não tardaria a ficar impermeável.
Leta à parte, algumas das costureirinhas forasteiras, formando grupinhos, juntavam-se ali pelas bandas do Grémio da Lavoura, para, numa caminhada de quase quatro quilómetros, retornarem a Vale da Pinta. No dia seguinte tudo se repetia.
Crónica publicada na edição de abril do Jornal de Cá.