quarta-feira, 13 de julho de 2016

4 - As inovações, os Avanços

As Inovações, os Avanços
    Aos poucos, lá se tentava sair da mediocridade. Passo a passo, lento q.b., alguns cérebros, iluminados por centelha de génio, foram deixando cair os rudimentares modos de vida das populações rurais, avançando com inventos de apetrechos e maquinetas que, pela sua utilidade e eficácia, contribuíam para um certo bem-estar das nossas gentes.
    As milenares candeias de azeite, feitas de latão, munidas de pavio de algodão embebido naquele óleo vegetal, e que mais parecia utensílio para velar defuntos, tinham, também elas, finado. Agora, era a vez dos candeeiros a petróleo, que começavam a proliferar. Mas, como sempre acontece, até nesta vertente se fazia notar a diferença entre o rico, o pobre e o remediado. Se o primeiro já se dava ao luxo de possuir um sofisticado candelabro de mesa, com vidro fino e rendilhado, o remediado sempre teria um candeeiro de pé-alto, ao invés do pobre, cujo utensílio era marreco, de pé-raso e, por isso, com fraca difusão de luz. Todavia, no que concerne a eventos públicos, já se utilizava o Petromax, de finíssima camisa rendada. Era esta a fonte de iluminação, tanto nos ensaios como nas atuações noturnas da Banda de Música. Nas adegas, desde o pisar das uvas até à “tiragem” do vinho, era usado o gasómetro a carboneto. Só para beberricar é que não havia sofisticação: uma vela ou um coto de cera davam cá uma luz que até lhes enchia a alma.
    Por força da marcha do progresso, as chaminés, até então fonte de alta poluição de fuligem emanada do borralho, já na década de 30 recebiam a suave labareda de uma nova máquina: o fogareiro a petróleo. Com reservatório, prato (para o álcool desnaturado), bomba, tripé, cabeça e espalhador, foi tal o seu incremento que, a partir de meados dos anos 40, estou em crer que não havia lar português onde não imperasse o “Hipólito” ou o “Combate”. Contudo, por uma questão económica, na década de 50, algumas donas de casa aderiram à moda dos fogareiros “movidos” a serradura. Muniam-se de um saco de linhagem, iam à serração do Sérgio Marques, à Sicosel ou à viúva do Fidalgo e, daí, abasteciam os ditos fogareiros. De forma cilíndrica, espécie de panela, depois de se lhe colocar um tarolo ao centro, na vertical, era a restante coroa circular preenchida por camadas de serradura, bem compactada, até ao topo. Por vezes, quando se retirava o pau, aquilo que devia parecer um pudim não passava de uma amálgama de lixo. Havia que ser paciente e repetir.

    O que acaba de ser narrado teria muito a ver com as zonas rurais, não só das freguesias do concelho, mas também nos arrabaldes do próprio Cartaxo. A energia elétrica, que se estendeu pelas freguesias em fins de 40, início de 50, não teve, a curto prazo, um impacte assinalável no modo de vida dos fregueses, ao contrário do que se possa pensar, já que a esmagadora maioria dos locatários não “meteu” luz em casa, no imediato. Eram tempos de contenção. A grande diferença esteve nos dias em que havia serões, passados nas “capelinhas”: Agora, com as ruas iluminadas, sempre que qualquer cidadão fazia o trajeto pedonal entre a taberna e sua casa, já não tropeçava tantas vezes como dantes.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

6 - Os meandros da Primária

“Estorial, com ou sem história”, por José Caria Luís
Volvidas que são mais de seis décadas, pergunto-me como foi possível a uma professora, idosa e de frágil aparência, lidar com aquela turba, de quase quarenta alunos, da 1ª à 4ª classe, composta por gente turbulenta e mal formada.
De tez esbranquiçada, mas cuidada, a senhora arranjava-se bem. Rosto sempre protegido por bons cremes, com dois toques de rouge nas faces, mais parecia uma boneca de porcelana, mas a sua aparente fragilidade era compensada pelas três armas, que utilizava com frequência: a cana-da-índia, a régua e os duros ossos das falanges. Dia em que ela não malhasse p’raí em 30% da rapaziada, nem era dia para ela nem tampouco para a malta. Sim, porque, de parte a parte, era tudo uma questão de hábito. Mas, se assim não fosse, como poderia a senhora levar a cabo tão espinhosa tarefa?
De vez em quando, a fim de aligeirar o pesado ambiente que pairava na sala de aula, a professora da Masculina costumava ir até ao átrio, para, em conjunto com a auxiliar, entabularem conversa sobre a habitual temática, que teria a ver com as novidades da terra. Ora, como seria de esperar, a rapaziada não era competente para ser deixada sozinha numa sala de aula, por isso, para evitar que por lá se instalasse o caos, a mestra escalava um dos alunos seus prediletos, a quem atribuía competências que visavam evitar, ou minorar, alguma desordem. O aluno que ficava de atalaia no gigante quadro de ardósia, de giz em riste, era escolhido a dedo. Seria filho de algo, mas, quase sempre, o nomeado era uma fraca figura, que nem tinha físico para apanhar uma constipação, quanto mais dois tabefes dos matulões prevaricadores, cujos nomes iam surgindo em catadupa. Estes bem o avisavam, prometendo ao puto uma punhada no queixo se, acaso, os seus nomes não fossem eliminados da tela, mas o rapazinho, que era nhurra ou masoquista, e porque tinha que apresentar serviço, a princípio não cedia. Porém, quando algum calmeirão, dos já sinalizados, fazia menção de se levantar e caminhar na direção do escriba, lá se ia a identidade dos mangas e, agora, só os nomes de alguns pequenotes figuravam no quadro negro.
Na época, travava-se a Guerra da Coreia, talvez por isso o tema mais em voga fosse a guerrilha de aviões de papel, que voavam pelos ares em todas as direções. Mas, quanto a mim, este seria um mal menor, comparando com a grosseria da horda que, ora pulava através das janelas para a rua e retorno, ora urinava nos tinteiros embutidos nas carteiras.
Acabado que estava o diálogo entre a mestra e a auxiliar, onde se havia escalpelizado, de fio-a-pavio, a vida mundana da aldeia, era a altura para o retorno da velha senhora ao cenário que antes fora de guerra, mas, agora, dir-se-ia ser um imaculado local de paz e meditação. Se, de entre as quase quatro dezenas de pupilos, somente quatro pequenotes tinham prevaricado, então era motivo de regozijo para a nossa professora. Se em casa, aos seus alunos, não lhes era dada educação, ainda bem que aqui vieram parar ao reduto da sabedoria, pese embora alguns destes bacanos já terem mais de 12 anos e, alguns deles, nem tenham sequer feito a 3ª classe.