terça-feira, 13 de dezembro de 2016

11 - O Peso dos Estratos

O Peso dos Estratos

Opinião de José Caria Luís


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Assim, reduzindo a performance dos patamares laborais, chegava-se àqueles que, por obra do não acaso, haviam de ser relegados para as áreas da marcenaria, cantarias e construção civil. Mas se estes sentiam alguma frustração por serem excluídos dos estratos superiores, que diriam os restantes que viriam a seguir?
Formou-se, então, a plêiade de trabalhadores rurais e serventes de pedreiro. Estas classes não eram muito bem-vistas no concelho, em especial na então vila do Cartaxo. Os primeiros, sendo imunes a angústias e frustrações, e não tendo quaisquer outros objetivos, entravam na agricultura descomplexados, com a maior das naturalidades. Nada de lamúrias. Era um facto consumado. Queixarem-se de quê, para quê? Os serventes, rapazolas ainda imberbes, que, em princípio, podiam (e deviam) ter outras aspirações, sabiam que tinham que passar uns anitos a estagiar na serventia, para deitar corpo e se afirmarem, se não pela veia artística, ao menos pela robustez.
Mas aqueles aspirantes a agricultores e mais estes serventes de pedreiro, que pensavam ter sido relegados para o fim da tabela, bem vistas as coisas, até poderiam não sentir grande desconforto, comparando com os que vou enunciar.
É verdade. Dos que agora vêm à liça, pior era impossível. Esta nova classe, sem classe, sem porte nem suporte e, muito menos, estatuto, albergava todos aqueles manhosos que, não gostando de vergar a mola, passavam o santo dia (anos e anos a fio) prostrados nos bancos do jardim (sim, porque o Cartaxo já teve um grande e belo jardim), a mandar piropos (alguns de mau gosto) às sopeiras que entravam ou saíam da Praça. Mas havia exceções, porque, de vez em quando, sempre que um proprietário da vila sentisse necessidade de obter os serviços de um qualquer habilidoso biscateiro que soubesse, ao menos, caiar uma empena de uma adega ou dar uma mãozinha a rebolar caixotes, já sabia onde o encontrar. Mas atenção, porque, logo à cabeça, era obrigação do contratante fornecer o mata-bicho matinal, mais uma litrada de branco, manhã fora… Hoje, estes cromos de outrora seriam classificados com o pomposo título de freelancers.
E, grosso modo, era assim a vida estudantil, laboral e pseudolaboral do concelho nos, não muito longínquos, anos 50-60.
Relatemos, então, em pormenor, cada área, por ordem cronológica, começando pelos académicos, que eram um pequeno grupo.
Como dizia (e ainda diz) o povo, nem todos podiam ser doutores ou engenheiros. Mas o pior da saga era quando alguns descontentes se punham a estabelecer comparações com aqueles que, segundo diziam, tinham nascido com o traseiro virado para a Lua. É que, avaliando o registo de certa rapaziada, daquela que, mesmo não tendo obtido resultados sonantes na Primária, nem tampouco eram possuidores de atributos tais que lhes conferissem autoridade bastante para prosseguir na vida académica, acabaram por ser castigados e catapultados para o Externato Marcelino Mesquita, para o Liceu Sá da Bandeira, ou para a EIC de Santarém. Depois, com o evoluir dos tempos, logo se aferiria do sucesso ou do fracasso de cada um.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

10 - O Sotaque e as Cunhas

O Sotaque e as Cunhas


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E foi aí, depois destes primeiros contactos de proximidade, que começámos a perceber que, afinal, o falar à moda de Vale da Pinta não era padrão nem modelo para ninguém que não fosse genuinamente valedapintense. É verdade… Opinião de José Caria Luís


E foi aí, depois destes primeiros contactos de proximidade, que começámos a perceber que, afinal, o falar à moda de Vale da Pinta não era padrão nem modelo para ninguém que não fosse genuinamente valedapintense. É verdade que, até então, e além da nossa própria matriz linguística, apenas conhecíamos as sonoridades do Cartaxo e de Pontével. Mas, caramba! Para tão curta distância geográfica entre estas três localidades, porquê tantas diferenças nas pronúncias das suas populações? Eu nem me atrevia a imaginar qual o tipo de fonética reinante nas aldeias que pertenciam a Pontével, como os Casais Lagartos, Casais da Amendoeira, Casais dos Penedos, Cruz do Campo, Casais de Vale da Pedra e Reguengo de Pontével. E na Ereira e sua vizinha Lapa? Os seus naturais também teriam sotaque? Também os falares das ribeirinhas Valada, Porto de Muge e Reguengo de Valada, eram por nós desconhecidos. E em Vila Chã de Ourique (na altura diziam-nos que era o Casal d’Oiro), ali a dois passos do Cartaxo, como seria afinal? Seria que, a nível concelhio, nos entenderíamos uns aos outros sem precisar de intérprete?
A verdade é que a ordem natural das coisas não se compadecia de tais limites linguísticos e, muito menos, geográficos. Chegava o momento de soltar amarras e de nos tornarmos livres. Porém, nada de ilusões, porque, logo à partida, ficámos com a noção de que o conceito de liberdade tinha muita subjetividade. Em princípio, seria como uma ramificação, cujas linhas divergentes não tinham origem na geração de que falo. A estratificação da sociedade civil em camadas estudantis e o vasto leque das laborais, já vinha de longe. Pelo que se sabia, a cor da massa encefálica pouco ou nada tinha que ver com as saídas (nestes casos, entradas) nos mercados. Tal como a cinzenta nem sempre acompanhou o estudante, também a amarelada não era exclusiva dos excluídos. E o mais curioso é que nem sempre era cada qual a escolher o seu destino: ele tinha que se sujeitar às regras que lhe iriam ser impostas, sem direito a quaisquer veleidades. Que interessava que eu quisesse vir a ser estudante a tempo inteiro, ou um mecânico enfiado num garboso de fato-macaco, se a sociedade me restringia esse meu desiderato? Não bastava querer: era preciso ter outros atributos, a começar pelas posses materiais, passando pelo rol de padrinhos, cujo empenho redundava nas respetivas cunhas. E demos connosco a observar o cotejo de hipóteses que se nos afiguravam, mas que, no fundo, muitas delas nos seriam vedadas logo à partida.
Também aqueles que eram relegados para fora da esfera académica ou mecânica tinham que fazer pela vida. Não adiantava carpir. Por tal motivo, mais lhes valia agarrarem-se a um leque de cunhas mais fracotas e entrarem nas áreas da serralharia civil, canalizador, eletricista e balconista. Contudo, mesmo sentindo algum desconforto por não fazerem parte das elites, bem podiam sentir-se moderadamente satisfeitos e levantar as mãos a Deus, porque bem pior que isso ainda estaria para vir.
Foi por isso que apareceu o pessoal sem cunhas nem dotes, que se viu relegado para patamares inferiores.
* Crónica publicada na edição de outubro do Jornal de Cá.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

9 - Novos Horizontes

Novos Horizontes


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Havia quem comungasse da ideia, de que só se convidava alguém para um casamento ou para um pé-de-dança de salão, mas aquela dança, que começava em ritmo de balada, e passava a foxtrot, acabava sempre à brida, num galope desenfreado.

Era chegada a altura de alargar horizontes, ver para além daquela linha limite que, por força das circunstâncias, nos foi imposta durante 10 anos. Até então, só em ocasiões especiais, como a Feira dos Santos ou o Senhor dos Passos, nos era dada a possibilidade de ver as gentes da, então, vila do Cartaxo, sem com elas conviver. Isto, porque, na área da saúde, sempre que se tornava necessária uma ida à farmácia para aviar uma receita, ou comprar os ingredientes para fabricar qualquer mezinha caseira, era, quase sempre, na vizinha Pontével. Esta era uma opção paradoxal, já que tinha benefícios e inconvenientes. Talvez mais estes que aqueles. Pontével, sendo mais perto, talvez uns 2 km – p’raí metade da distância em relação ao Cartaxo – merecia a nossa opção, ainda que sob reserva, já que os riscos que a rapaziada corria faziam-nos correr a bom correr. Éramos uns cinco: um interessado e quatro convidados (os capangas). Havia quem comungasse da ideia, de que só se convidava alguém para um casamento ou para um pé-de-dança de salão, mas aquela dança, que começava em ritmo de balada, e passava a foxtrot, acabava sempre à brida, num galope desenfreado.
Quando entrávamos em Pontével, e durante a caminhada até à farmácia, quase não se via vivalma, a terra mais parecia uma povoação fantasma, abandonada. Sob forte tensão, mirávamos cada esquina e, até à farmácia do Ascenso ou do Marrafa, tudo parecia normal. Já com o produto da compra metido no habitual saquito de riscado, lá ensaiávamos o retorno à terra, a Vale da Pinta, que, estando ali a uns escassos 2 km, mais nos parecia ser no fim do mundo.
Assim que a comitiva entrava no largo do coreto, abatia-se sobre nós uma autêntica saraivada de pedras, acompanhadas de gritos de guerra, como: – Carrapatosos! Fora para a terra da pedra!
Então, nós éramos os apedrejados (com pedras made in Pontével) e tínhamos que ir para a terra da pedra? Pedradas e mais pedradas. Mas pedradas com pedras, porque nesta época ainda ninguém se pedrava. Pontével sempre foi uma terra de bons atletas, mas, em situações de apuros como estas, tenho dúvidas de quem ganharia a corrida. Pé descalço, macadame afora, era pormo-nos a salvo, a fugir até à fronteira, além do forno da cal da Quinta do Covão. Tudo isto se evitava se houvesse, ao menos, uma farmácia em Vale da Pinta. Nós, rapazitos, pensávamos que esta coisa dos alvarás dos consultórios e estabelecimentos comerciais que definiam o ramo de atividade, eram facultativos: enquanto Pontével optara por médicos (Dr. Egas e Dr. Brogueira) e mais as duas farmácias acima citadas, Vale da Pinta tinha escolhido o alvará das tabernas.
Uma coisa era certa: transpondo fronteiras, e pese embora o estilo primitivo e belicista que pautou os contactos com os nossos vizinhos cartaxeiros e pontevelenses (muito mais com estes que com aqueles), deu para entender que a tonalidade da linguagem (pronúncia) utilizada pelo trio concelhio, nada tinha em comum. As diferenças eram abissais, como se poderá constatar na edição seguinte.

8 - Uma Caricatura de Estágio

Estorial com ou sem História, por José Caria Luís
Depois de tanto estudar, prevaricar, dar e levar (xutos e pontapés), e tantas outras ocorrências próprias de rapazes de mau porte, chegava o fim das nossas carreiras na Primária. No entanto nem tudo fora assim tão mau, já que houve atitudes, pautadas por alguma nobreza de caráter, que ajudavam a disfarçar as malfeitorias da nossa rapaziada.
Naquelas idades, criados num meio rural tão hostil às criancinhas, também não se esperaria que o pessoal tivesse a veleidade de aspirar à coroação ou a outra qualquer forma de loa. Contudo, há que ser coerente e, para que conste, quase todos frequentámos a catequese e as missas de domingo; não éramos nenhumas almas penadas que para ali andavam. Tendo em conta a lisonja de que fui alvo ao ser escolhidopela catequista, Dª Regina Couto Viana, para rumar ao Seminário, já não me podiam estigmatizar pelas façanhas antes cometidas. Eu acho que o pior dos males tinha que ver com o rescaldo das confissões. É que confessar os pecados ao padre e, após rezar as cinco avé-marias da penitência, ficar a saber que se estava ilibado de todas as patifarias, não ajudava muito à nossa reabilitação. Os castigos deveriam ser mais severos e duradouros.
Mas falemos do estágio. Tendo em conta que a nossa mestra residia no Cartaxo, era de todo lógico que o nosso estágio tivesse lugar na, então, vila; mais propriamente, na habitação da senhora, na rua Serpa Pinto. Íamos a penantes, mas muito contentes, cantando durante todo o caminho, até porque estudar no Cartaxo era outra coisa. Porém, o desencanto não tardou: o aposento que nos fora destinado, e cujas portas nos foram franqueadas, era um logradouro com entrada e saída para a rua do Quintino. Infestado de galinheiros e coelheiras, de onde emanava um intenso pivete, era ali, sem um mínimo de condições, sentaditos nuns toscos cepos de oliveira, que tínhamos que armazenar na pinha toda a matéria que a professora nos passava à primeira hora. Só a voltávamos a ver no fim da sessão, ao final da tarde.
Como se depreende, era verão, o calor abafava, e nós, os quatro, ali debaixo de uma espécie de telheiro, a sermos incomodados pelos pintainhos que, famintos, não nos davam tréguas, não tínhamos vida fácil. Os franganitos que, à nossa semelhança, também estavam num regime alimentar de pão seco, lá iam depenicando as nossas migalhas, já que comida quente nem vê-la. Mas eu, e mais os três comparsas que completavam o quarteto, estávamos imbuídos de enorme espírito de missão, pois estávamos avisados de que, pela frente, teríamos os alunos da Primária do Cartaxo, do conceituado prof. Poeira, que seriam o padrão, a bitola pela qual nos tínhamos que pautar.
Apesar de tudo, tínhamos a sensação de que estaríamos preparados para enfrentar o batas-brancas do prof. Poeira. Eles eram muitos, mas só me lembro de alguns deles, como o Veríssimo, o Júlio Neves, e o João Carlos Silveira. Talvez por sermos tão poucos, o espírito de equipa esteve sempre presente.
No fim, tudo acabou bem. Para um início escolar algo atribulado, e quatro anos um tanto rocambolescos, não se pode dizer que tenha sido um final infeliz.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

7 - No Auge da Primária

No auge da primáriaNo Auge da Primária

No auge da primária

Opinião de José Caria Luís


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Como ficara expresso na anterior edição, as Primárias eram subdivididas em duas fações: a Masculina e a Feminina. Queria isto dizer que: rapazes para um lado, raparigas para o outro. No entanto, com a chegada de uma nova professora para as meninas, antevíamos que o cenário do relacionamento entre géneros, até aqui demasiado austero, iria revelar-se um pouco mais amistoso. Não seria bem um tipo de cordialidade de ”tu cá, tu lá”,mas… acreditámos.
A recém-chegada Odete, uma minorca de 1,40m, vinha de outras andanças, de outros registos. Com sangue novo na guelra e evidente convicção progressista, apercebendo-se do clima gélido existente, não descansou enquanto não levou por diante o seu propósito, tendo, para isso, de convencer, a custo, a minha velha mestra que, renitente, custou a anuir à nova maneira de fazer relacionar as meninas com a rapaziada. Como se sabe, o contrário era fácil. Na época, os rapazes eram muito mais liberais e despidos de preconceitos. Mas a noviça, apercebendo-se da ausência de relacionamento, encetou um programa de cantorias populares portuguesas, que agradavam, de modo distinto, aos alunos/as que nele participavam. Por banda das raparigas, que sempre gostaram de cantar, todas receberam de bom grado aquele evento, sem outros subterfúgios, mas, para os rapazes, cada sessão traria vantagens em várias vertentes. Os vaidosolas,porque queriam exibir-se diante das moçoilas; os restantes cromos, onde se inseriam os cábulas, os trauliteiros e os repetentes, também estavam felizes, porque, além de terem a certeza de que, enquanto durasse a exibição do coral, ninguém os obrigaria a estudar, também estavam a salvo dos habituais tabefes.
Então, às quartas-feiras, logo após o almoço, lá ia a Masculina, em peso, inundar os aposentos das meninas. A professora Odete é que comandava as hostes. Ela é que, com ou sem habilitações para o efeito, e mesmo sem partitura, dava o mote e o lamiré, já que, em termos de diapasão, aquilo soava a uma certa desafinação. Começava ela pelo “tau, tau, vira o bacalhau”; seguia-se “João Brandão”; depois a “Tia Anica”, enfim… um rosário de cantilenas que, uma semana, duas semanas depois, seriam repetidas até entrarem nas monas e no ritmo desejado pela docente.
Mas a verdade é que todo aquele aparato, de pretenso convívio, era apenas e só fogo-de-vista, coisa efémera, porque a realidade era bem diferente. Acabada que estava a sessão, ai daquele que se atrevesse a permanecer por ali, em terreno inimigo, ou lançasse um qualquer piropo a uma miúda. Tinha a sentença lida antes do julgamento.
Mas as aulas continuavam e, agora, era tempo de preparar o exame da 3ª classe, já que os professores Castanho e Carmina, vindos do Cartaxo, estariam por aí a chegar para avaliar os nossos conhecimentos. Esta prova, aberta ao público, decorreu com toda a normalidade, pese embora a ausência dos cábulas, alguns já veteranos, que nem sequer foram propostos a exame. Sabíamos, no entanto, que, no ano letivo seguinte, na 4ª classe, as coisas iriam fiar mais fino, mas, bem lá no fundo, era daquilo que nós gostávamos.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

4 - As inovações, os Avanços

As Inovações, os Avanços
    Aos poucos, lá se tentava sair da mediocridade. Passo a passo, lento q.b., alguns cérebros, iluminados por centelha de génio, foram deixando cair os rudimentares modos de vida das populações rurais, avançando com inventos de apetrechos e maquinetas que, pela sua utilidade e eficácia, contribuíam para um certo bem-estar das nossas gentes.
    As milenares candeias de azeite, feitas de latão, munidas de pavio de algodão embebido naquele óleo vegetal, e que mais parecia utensílio para velar defuntos, tinham, também elas, finado. Agora, era a vez dos candeeiros a petróleo, que começavam a proliferar. Mas, como sempre acontece, até nesta vertente se fazia notar a diferença entre o rico, o pobre e o remediado. Se o primeiro já se dava ao luxo de possuir um sofisticado candelabro de mesa, com vidro fino e rendilhado, o remediado sempre teria um candeeiro de pé-alto, ao invés do pobre, cujo utensílio era marreco, de pé-raso e, por isso, com fraca difusão de luz. Todavia, no que concerne a eventos públicos, já se utilizava o Petromax, de finíssima camisa rendada. Era esta a fonte de iluminação, tanto nos ensaios como nas atuações noturnas da Banda de Música. Nas adegas, desde o pisar das uvas até à “tiragem” do vinho, era usado o gasómetro a carboneto. Só para beberricar é que não havia sofisticação: uma vela ou um coto de cera davam cá uma luz que até lhes enchia a alma.
    Por força da marcha do progresso, as chaminés, até então fonte de alta poluição de fuligem emanada do borralho, já na década de 30 recebiam a suave labareda de uma nova máquina: o fogareiro a petróleo. Com reservatório, prato (para o álcool desnaturado), bomba, tripé, cabeça e espalhador, foi tal o seu incremento que, a partir de meados dos anos 40, estou em crer que não havia lar português onde não imperasse o “Hipólito” ou o “Combate”. Contudo, por uma questão económica, na década de 50, algumas donas de casa aderiram à moda dos fogareiros “movidos” a serradura. Muniam-se de um saco de linhagem, iam à serração do Sérgio Marques, à Sicosel ou à viúva do Fidalgo e, daí, abasteciam os ditos fogareiros. De forma cilíndrica, espécie de panela, depois de se lhe colocar um tarolo ao centro, na vertical, era a restante coroa circular preenchida por camadas de serradura, bem compactada, até ao topo. Por vezes, quando se retirava o pau, aquilo que devia parecer um pudim não passava de uma amálgama de lixo. Havia que ser paciente e repetir.

    O que acaba de ser narrado teria muito a ver com as zonas rurais, não só das freguesias do concelho, mas também nos arrabaldes do próprio Cartaxo. A energia elétrica, que se estendeu pelas freguesias em fins de 40, início de 50, não teve, a curto prazo, um impacte assinalável no modo de vida dos fregueses, ao contrário do que se possa pensar, já que a esmagadora maioria dos locatários não “meteu” luz em casa, no imediato. Eram tempos de contenção. A grande diferença esteve nos dias em que havia serões, passados nas “capelinhas”: Agora, com as ruas iluminadas, sempre que qualquer cidadão fazia o trajeto pedonal entre a taberna e sua casa, já não tropeçava tantas vezes como dantes.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

6 - Os meandros da Primária

“Estorial, com ou sem história”, por José Caria Luís
Volvidas que são mais de seis décadas, pergunto-me como foi possível a uma professora, idosa e de frágil aparência, lidar com aquela turba, de quase quarenta alunos, da 1ª à 4ª classe, composta por gente turbulenta e mal formada.
De tez esbranquiçada, mas cuidada, a senhora arranjava-se bem. Rosto sempre protegido por bons cremes, com dois toques de rouge nas faces, mais parecia uma boneca de porcelana, mas a sua aparente fragilidade era compensada pelas três armas, que utilizava com frequência: a cana-da-índia, a régua e os duros ossos das falanges. Dia em que ela não malhasse p’raí em 30% da rapaziada, nem era dia para ela nem tampouco para a malta. Sim, porque, de parte a parte, era tudo uma questão de hábito. Mas, se assim não fosse, como poderia a senhora levar a cabo tão espinhosa tarefa?
De vez em quando, a fim de aligeirar o pesado ambiente que pairava na sala de aula, a professora da Masculina costumava ir até ao átrio, para, em conjunto com a auxiliar, entabularem conversa sobre a habitual temática, que teria a ver com as novidades da terra. Ora, como seria de esperar, a rapaziada não era competente para ser deixada sozinha numa sala de aula, por isso, para evitar que por lá se instalasse o caos, a mestra escalava um dos alunos seus prediletos, a quem atribuía competências que visavam evitar, ou minorar, alguma desordem. O aluno que ficava de atalaia no gigante quadro de ardósia, de giz em riste, era escolhido a dedo. Seria filho de algo, mas, quase sempre, o nomeado era uma fraca figura, que nem tinha físico para apanhar uma constipação, quanto mais dois tabefes dos matulões prevaricadores, cujos nomes iam surgindo em catadupa. Estes bem o avisavam, prometendo ao puto uma punhada no queixo se, acaso, os seus nomes não fossem eliminados da tela, mas o rapazinho, que era nhurra ou masoquista, e porque tinha que apresentar serviço, a princípio não cedia. Porém, quando algum calmeirão, dos já sinalizados, fazia menção de se levantar e caminhar na direção do escriba, lá se ia a identidade dos mangas e, agora, só os nomes de alguns pequenotes figuravam no quadro negro.
Na época, travava-se a Guerra da Coreia, talvez por isso o tema mais em voga fosse a guerrilha de aviões de papel, que voavam pelos ares em todas as direções. Mas, quanto a mim, este seria um mal menor, comparando com a grosseria da horda que, ora pulava através das janelas para a rua e retorno, ora urinava nos tinteiros embutidos nas carteiras.
Acabado que estava o diálogo entre a mestra e a auxiliar, onde se havia escalpelizado, de fio-a-pavio, a vida mundana da aldeia, era a altura para o retorno da velha senhora ao cenário que antes fora de guerra, mas, agora, dir-se-ia ser um imaculado local de paz e meditação. Se, de entre as quase quatro dezenas de pupilos, somente quatro pequenotes tinham prevaricado, então era motivo de regozijo para a nossa professora. Se em casa, aos seus alunos, não lhes era dada educação, ainda bem que aqui vieram parar ao reduto da sabedoria, pese embora alguns destes bacanos já terem mais de 12 anos e, alguns deles, nem tenham sequer feito a 3ª classe.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

5 - A Primária, em Apartheid

“Estorial, com ou sem história”, por José Caria Luís
Os anos 50 estavam aí. A Escola Primária, em regime de Apartheid,também. Se, para muitos, esse facto nada tinha de transcendente, era apenas o início de uma nova década, o mesmo não se poderá dizer para aqueles e aquelas que, no dia 7 de outubro, por força dos seus 6-7 anos, foram chamados à liça, isto é, ao SEO. Esta pomposa sigla, agora inventada, trocada por miúdos, traduz-se em Serviço Escolar Obrigatório. Falo por mim, porque o choque foi brutal. Mesmo para aquela malta travessa que, durante o dia, fazia uma série de diabruras por esses vinhedos adentro, e nos tempos livres andava sempre à bulha, aquele episódio da apresentação foi muito traumatizante. A manter-se aquele ritual nos tempos que correm, não faltaria trabalho para psicólogos, psiquiatras e afins. Sim, porque coitadas das criancinhas!
Parece que estou a ver as cenas. A professora Lucinda, de batinha branca vestida, sentada na sua poltrona, a auditar as mães, uma a uma, cada qual com o seu rebentopela mão. Estes, só faziam figura de corpo presente, já que, durante a cerimónia, nenhum abriu o bico. Se aquilo fosse sempre assim, a Escola seria uma maravilha… Mas não era. De cada vez que entrava um par (mãe e filhote) na Sala de Aula, aquela trintena e meia de alunos levantava-se, em sinal de cortesia. Ato contínuo, elevavam o braço direito e, com este hirto, numa saudação ao estilo nazi, faziam as honras da casa, neste caso, da Escola. Tudo corria bem. A coreografia não era feia; mesmo tendo em conta as carantonhas que alguns bacanos nos faziam, a fim de nos amedrontar; mas o pior foi a vergastada que a professora deu na secretária, no propósito de acalmar a horda. Empunhando uma enorme cana-da-índia cheiinha de nós, bateu com esta na secretária com tal força que deve ter libertado para cima de uma centena de decibéis. Naquele instante assustei-me. E, mesmo em ambiente estranho, fiz uma birra dos diabos. Mas isso foi só uma entradaminha, para marcar território, porque, volvido algum tempo, já eu era tão ou pior que aqueles. Agora, passada que foi a cerimónia de apresentação, era hora de adaptação aos bons e maus costumes vigentes.
Vi, depois, que o Apartheid existia. Era real a separação entre géneros. Sim, porque do outro lado da barricada também havia Escola. Era a secção feminina. E, ao contrário daquele ambiente depravado no setor masculino, as nossas amigas princesas gozavam de uma paz e imunidade tais que, estabelecendo um paralelo entre as duas, dir-se-ia que era o Inferno e o Céu. O famigerado e sinistro muro de separação entre géneros era aterrador. Mas, além da fronteira física que esse muro representava, havia um prolongamento virtual do mesmo. Rapaz ou rapariga, que fossem detetados para além da linha invisível, era denunciado/a à Mestra. Estas, além dos bofetões, palmatoadas e canadas com que brindavam os alunos, ainda os excomungavam, diante das plateias.
Bullying era mais com a rapaziada. Eu, bem vistas as coisas, nem lhe chamaria esta inglesice. As brigas eram sempre a dois. Clãs e grupos para malhar nos outros, não conheci. Cada qual que se desenrascasse.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

3 - Restrições - Racionamentos

“Estorial, com ou sem história”, por José Caria Luís
Como consequência do flagelo da II Guerra, certos hábitos e tradições das populações sofreram sérios reveses. Contudo, para a esmagadora maioria dos putos, houve uma coisa que se manteve fiel a si própria: a do caminhar pelo processo de pé-descalço. Tal como foi narrado na edição anterior, aqui, pelo concelho do Cartaxo, nada desse processo fora afetado; quem antes calcorreara de pé ao léu, poderia continuar a fazê-lo. As exceções aconteciam nos dias em que havia festa na terra, ou quando o fotógrafo (“a la minute”) se deslocava à Escola Primária para fazer o registo anual. Mesmo assim, nem todos iam a preceito, pois ainda restavam uns quantos renitentes, alérgicos ao calçado, que desalinhavam na observância do protocolo.
Inovações? Também as houve, reconheça-se esse facto. Alguém de dentro do Império Salazarista – ou ele próprio – resolveu implementar novas diretivas, que passavam a regulamentar o modo como cada um poderia adquirir os produtos alimentares na mercearia da esquina. Era um sistema de cadernetas, compostas por quadradinhos picotados, a chamada senha, onde, em cada uma delas, se designava o tipo de produto a levantar. De entre a ínfima gama contemplada, recordo-me do café, do açúcar, do arroz e das massas. O resto era adquirido nos candongueiros locais, por meio de cunhas e a bom preço.
O cardápio das refeições era muito monótono. Pela manhã, uma tijela de café com borras, salpicado de leite. Esse leite, de cabra ou de vaca, que a leiteira local, no seu périplo do porta-a-porta, havia deixado no portal. O almoço, quase sempre com base em batatas e mais batatas, tinha como ornamento uma lasca de bacalhau ou uma metade de sardinha por cabeça (comensal). Quantas vezes a sopa do jantar fora confecionada com recurso a ervas recolhidas nas valetas e cômoros rurais, como urtigas, acelgas, cardos e ineixas… Desde que fosse coisa verde, quase tudo era utilizado para compor a panela da sopa. Mas não depreciemos tais iguarias, porque, se, na época, eram cozinhadas como único recurso, hoje, na segunda década do séc.XXI, parece que tais vegetais voltaram à mesa dos tugas, quanto mais não seja pela singularidade.
Quando, no dia da Feira ou da Festa, se matava uma galinha, era mesmo uma “festa”. A galinha era nada e criada no quintaleco do casebre, mas o arroz que a acompanhava fora adquirido por meio das tais senhas de racionamento.
Na cozinha rural, sobre a lareira, crepitava o brando lume, feito com cepas, cavacos, ramos ou vides. Os cavacos podiam ser adquiridos no Maurício, em Pontével, na Amélia Serafana, em Vale da Pinta, ou na carvoaria do “pé-descalço” e sua ajudante, a esposa Amália, no Cartaxo. Isto, entre os anos 40 e 50. Mas, devido às limitações financeiras da época, havia muita gente que solucionava a carência deste tipo de combustível de outra maneira: os conhecedores do meio rural percorriam as cercanias e deitavam a mão a tudo o que lhes dava jeito. Assim, já havia lume para todos: tanto para os que pagavam, como para os que roubavam. Era o despontar da democracia. Mas os fogareiros a petróleo, não tardariam por aí.