segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

 O Sacristão e os 2 Diabos (em figura de gente)

Vale da Pinta, dos anos 50, viveu momentos e sagas que, não sendo do agrado de todos, a muitos fazia rir. Desde sempre, que certas diabruras perpretadas por uma certa libertinagem juvenil, davam azo a risadas, paródia e, também, a uma onda de reprovações. Dependia do ponto de vista de quem analisava os factos. 
Como era prática habitual, o sacristão e funcionário camarário, Francisco Saboga, depois de deixar o carro-de-mão de serviço junto à entrada  de acesso à torre sineira, abria a porta, na qual deixava a chave, e subia aqueles, para ele, muitos degraus, a fim de tocar as Avé-Marias.  Certa tarde, aproveitando as deixas do Saboga no exterior, apareceram por lá dois judeus locais que resolveram pregar duas partidas ao bondoso sacristão que pensava estar em ambiente sagrado. O homem, acabado que foi o toque sineiro, desceu as escadas mas não saiu. Não saiu porque a porta de acesso estava fechada à chave pelo exterior. Aflito, bateu umas quantas vezes na dita tentando chamar a atenção de quem por ali pudesse estar a passar, mas debalde. Ninguém o ouviu. Bom, ninguém o ouviu não foi bem assim, porque os dois manguelas permaneciam junto à porta e bem riam do pedido de ajuda do acólito. Este, sentindo-se enclausurado, voltou a subir a escadaria de volta ao postigo do sino norte para, daí, ver o que se passava no exterior. Logo reconheceu os dois rapazolas que, lá em baixo, gozavam com a situação. Mas, mesmo depois de muito lhes rogar para que lhe abrissem a porta, os sacanas dos rapazes deram o fora e deixaram-no numa situação algo crítica.
Depois de voltar a subir aqueles cruéis degraus, dirigiu-se a um dos sinos e vai de tocar qualquer coisa, como sinal de rebate. Foi assim, que a vizinha Marília, estranhando tais toques, se dirigiu à porta da Igreja onde pôde ouvir, de viva voz, os apelos do sacristãoà liberdade.
O Saboga saiu, enfim, mas a saga ainda não terminara, já que, ao empunhar os varais do carrinho, sentiu os efeitos de uma massa gorda, a modos que gelatinosa, escorrendo-lhe pelas mãos e antebraços que tresandava. Era mesmo uma porcaria.
No dia seguinte, o Francisco Saboga, já refeito das tropelias de que fora vítima, ainda teve estofo para, na taberna do Xô-Diabo, resumir as peripécias da véspera. E dizia ele, em sinal de desabafo:
- Esse pirata do "Armêndio" (Arménio), foi o que me fechou na torre da Igreja, mas malandro, malandro foi o "Nosso Senhor", que me cagou os varais do carrinho onde eu pus as mãos.
- Quem lhe pôs o "Nosso Senhor", nunca conheceu o Diabo!

A minha homenagem póstuma ao amigo António Constantino Caria, aqui descrito como "Nosso Senhor". 


 

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

32-Quando a História passou pelo Cartaxo (III)

Quando a História passou pelo Cartaxo (III)

Crónica de José Caria Luís

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É verdade! Foi com um longo e apertado abraço que o General Humberto Delgado correspondeu àquela grande manifestação do cartaxeiro Carlos Batista Pego, reflexo de um misto de regozijo e angústia de um homem lavado em lágrimas. Mas eu, com os meus 14 anos, é que não atingia a razão de ser daquela dramática cena perpetrada por alguém saído da multidão, que se abeirou e abraçou efusivamente o General. Porém, ainda que sem saber o porquê, também me emocionei, não deixando de verter algumas lágrimas pelo sucedido.
Curioso, perguntei a alguns dos circunstantes, pessoas mais velhas que eu, o porquê de tal manifestação, mas a verdade é que eles sabiam tanto quanto eu, que era nada. Com receio de sofrer alguma retaliação ou castigo pela demora, e sem a mercadoria para apresentar na Recauchutagem, saí apressadamente sem, no entanto, ter conhecido o ónus da questão. Mesmo assim, ainda deu para ouvir os primeiros acordes vocais do Hino Nacional entoados pelo povo.
Nessa tarde, a mando do encarregado, voltei à drogaria do Carlos Pego a fim de levantar as tais latas de tinta. Desta vez encontrei as portas do estabelecimento abertas, mas, lá dentro, atrás de um longo balcão, estava um homem abatido, pesaroso, de olhar distante. Ele, Carlos Pego, pessoa relativamente alta, esguia e dinâmica, parecia estar, naquela tarde, ausente de tudo o que o rodeava. Foi o empregado Domingos Colegas – esse eterno aprendiz de toureiro – que, em silêncio, se aprontou a servir-me a encomenda. Já no armazém, que ficava no fundo da loja e onde estávamos fora do raio da ação auditiva do patrão, pedi ao Domingos que me explicasse a cena da manhã, ao que ele, em surdina, me relatou a situação em que se encontrava o genro do Carlos Pego, preso político algures numa masmorra da PIDE, creio que para as bandas de Caxias. Seria por isso que a esperança na almejada liberdade falava mais alto.
O Cartaxo seria, também, 16 anos mais tarde, cenário da passagem de uma extensa coluna de viaturas de combate da Escola Prática de Artilharia de Santarém, que, na madrugada de 25 de Abril de 1974, marchou sobre Lisboa, com a missão de ajudar a tomar pela força “O estado a que as coisas tinham chegado.” Palavras estas, entoadas pelo capitão Salgueiro Maia na preleção às sua tropas no Quartel de Santarém, pouco antes da partida rumo a Lisboa. Se a saída do Quartel se deu por volta das 03h30, então é bem provável que a passagem pela, então, vila do Cartaxo, tenha ocorrido por volta das 04h00 da madrugada.
O aparato seria grande, espetacular mesmo, mas, àquela hora, o sono profundo dos cartaxeiros era o que mais ordenava. E foi assim, meio em segredo, que uma coluna formada por 10 blindados, 12 de transporte, um jipe e mais uma viatura civil, onde viajava o capitão Salgueiro Maia, atravessava o Cartaxo a caminho da capital. O que lhes valeu – aos dorminhocos – foi o facto de os rodados serem todos de borracha, porque, imagine-se o estardalhaço em toda a vila se, acaso, em vez das maneirinhas e silenciosas rodinhas tivessem rolado altas, largas e ruidosas lagartas…
Assim, o Cartaxo também faz parte da História.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

31-Quando a História passou pelo Cartaxo (II)

Quando a História passou pelo Cartaxo (II)

Crónica de José Caria Luís

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Na sequência da crónica do mês de junho, o Cartaxo voltou a ter protagonismo no que concerne a factos políticos de algum relevo.
Quando, em 1958, o Chefe de Estado, general Craveiro Lopes, entrou em conflito com Salazar, deixou de ser proposto para um segundo mandato. No propósito de sair da situação de impasse, resolveu Salazar convocar eleições para a Presidência da República. A contrapor as candidaturas dos independentes Dr. Arlindo Vicente e general Humberto Delgado, Oliveira Salazar apresentou o seu candidato da União Nacional, o contra-almirante Américo Thomaz. Após o descalabro, pela razão da força, de umas pérfidas eleições, e porque o sistema vigente era do género do vira o disco e toca o mesmo, de forma a manter o figurino político de então nunca o sistema permitiria que aquelas eleições fossem livres. Esse golpe culminaria com a nomeação, por Salazar, do renegado ribatejano Américo Thomaz, para exercer o cargo de Presidente da República. O Thomaz, contrariamente ao que dele se dizia, não me pareceu ser burro, de todo. E eu, numa reunião em que estive presente, durante uma sua visita à Marina de Vilamoura, – o que transcreverei noutro local – pude testemunhar isso mesmo. No entanto, rezam as crónicas e testemunhos de então, que quem tudo comandava na retaguarda era o seu mentor Oliveira Salazar.
Essas eleições tiveram campanha e tudo. Com a diferença de os gastos dos independentes terem sido obtidos através de subscrições públicas e donativos particulares, ao contrário do representante da União Nacional cujas verbas foram suportadas pelo governo de Salazar, isto é, pelo Zé Povinho. Contudo, além dos muitos milhares de boletins de voto roubados pela PIDE, muitos outros nunca chegaram a certas zona do país, onde se supunha haver muito povo do contra.
Foi assim que, numa manhã de primavera de 1958, apareceu pelo Cartaxo, a fazer campanha, a comitiva do general Humberto Delgado. Eu, com 14 anos, nunca tal tinha ouvido, quanto mais visto. À época, trabalhava na Recauchutagem e, nessa qualidade, fui incumbido de ir comprar umas tintas à Drogaria do Carlos Pego, porém deparei-me com o estabelecimento encerrado. Pelo que me disseram, o dono teria ido para o ajuntamento, na Praça 15 de Dezembro. Nem acreditei, já que sempre ouvira dizer que o Salazar nunca permitiu ajuntamentos onde figurassem mais de 2 pessoas. Curioso, desci aquele pedaço da Batalhoz. E nem foi preciso avançar além do Manel d’ Água, para ver aquele mar de gente que ali estava sem eu saber porquê e para quê. No entanto, deduzi que aquela multidão é que seria o tal ajuntamento. Mas com que finalidade? Perguntei ao cartaxeiro Alfredo Cachorrinho o que se passava. Este, quase em surdina, explicou-me o fenómeno. Estava por aí a chegar o general Humberto Delgado, o assumido ribatejano que se propunha derrubar de vez o sinistro regime salazarista.
Humberto Delgado chegou, enfim! E eu vi-o ali, a uma dezena de metros. Ouvi gritos de vivas e vi lágrimas em muitos rostos, mas o Carlos Pego chorava convulsivamente agarrado ao general. Porquê? Fiquei chocado e confuso.
  • Artigo publicado na edição de julho do Jornal de Cá.

30-Quando a História passou pelo Cartaxo (I)

Quando a História passou pelo Cartaxo (I)

Crónica de José Caria Luís

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A fazer fé na Wikipédia, desde o séc. XII, muita gente ilustre terá visitado ou, simplesmente passado, pela zona que, hoje, confina o concelho do Cartaxo. De entre todos eles, elenco apenas alguns, como o fundador Afonso Henriques, Isabel de Aragão, D. Dinis, também Nun’Álvares Pereira, mais o general Junot, o compositor húngaro Franz Listz, Almeida Garrett e, até, imagine-se, o estadista Oliveira Salazar, que, numa das raras saídas de S. Bento, estagiou uns dias na Quinta da Cruz, propriedade do seu amigo Embaixador Teixeira de Sampayo. O advogado e dramaturgo Ramada Curto, inimigo figadal de Salazar, também foi contemporâneo do Presidente do Conselho no concelho, que não no mesmo sítio. Viveu na Quinta do Refúgio, de que era proprietário, porém a uma distância de uns 4 km, em linha reta, ineficaz para qualquer golpe à base de zagalote. Mas as ilustres figuras que demandaram o Cartaxo não se quedavam por aqui, como mais à frente se revela.
A antiga Feira do Ribatejo – assim chamada antes da nova denominação de Feira Nacional de Agricultura – considerada que foi uma montra, um evento nacional de relevo, sempre teve a apetência no aparecimento e no aproveitamento de figuras políticas, altas figuras de Estado. Mesmo no período em que não havia concorrência, era preciso vincar, marcar posição e mostrar que quem mandava ali (e aqui) eram eles. Como se compreende, os ditos cujos, não habitando em terras do Ribatejo, sempre que se deslocavam à velha Scalabis tinham que, em condições normais, fazer o seu périplo através de terras da então vila do Cartaxo. A viagem era curta. Até porque, ao longo do traçado rodoviário entre Belém ou São Bento e Santarém, não tinham as suas limusinas que esgrimir e fazer golpes de cintura para atravessar o coração (salvo seja) do Cartaxo, terra que chegou a ser uma linda vila ribatejana. À época, circulando numa EN3 sem rotundas, nem certos tipos de atafulhos que provocassem engulhos, a comitiva não tinha motivo para se deter, salvo se, por via de outros altos valores, tal se justificasse, como veio a suceder.
Naquele tempo, em meados dos anos 50, o Presidente da Câmara Municipal do Cartaxo era o eng.º João Carlos Dias de Castro Reis. Homem escorreito, de bom trato, com a figura ideal para ocupar tal função, era, também, uma pessoa de muito prestígio a nível municipal. Tirando partido do raro momento, não deixou o edil de apelar à presença das massas, a fim de emoldurar o cenário condizente com passagem pela vila do “venerando”, do “mais alto magistrado da nação”, como na altura era tratado o P.R., Américo de Deus Rodrigues Thomaz. Ele, Thomaz, um ribatejano de Ferreira do Zêzere, que, diz-se, tinha vergonha de o ser.
A manifestação e a lisonja local de apoio ao P.R. foram de tal modo efusivas que, no rescaldo de curto prazo, catapultou João Carlos Reis para Governador Civil de Santarém. Não sei se o concelho do Cartaxo chegou algum dia a tirar proveito do facto, mas, a meu ver, também não seria caso para isso.
Todavia, quer em 1958, quer em 1974, a História voltou a terras do Cartaxo, conforme se narrará na próxima edição.
  • Artigo publicado na edição de junho do Jornal de Cá.