O Sacristão e os 2 Diabos (em figura de gente)
Vale da Pinta, dos anos 50, viveu momentos e sagas que, não sendo do agrado de todos, a muitos fazia rir. Desde sempre, que certas diabruras perpretadas por uma certa libertinagem juvenil, davam azo a risadas, paródia e, também, a uma onda de reprovações. Dependia do ponto de vista de quem analisava os factos.
Como era prática habitual, o sacristão e funcionário camarário, Francisco Saboga, depois de deixar o carro-de-mão de serviço junto à entrada de acesso à torre sineira, abria a porta, na qual deixava a chave, e subia aqueles, para ele, muitos degraus, a fim de tocar as Avé-Marias. Certa tarde, aproveitando as deixas do Saboga no exterior, apareceram por lá dois judeus locais que resolveram pregar duas partidas ao bondoso sacristão que pensava estar em ambiente sagrado. O homem, acabado que foi o toque sineiro, desceu as escadas mas não saiu. Não saiu porque a porta de acesso estava fechada à chave pelo exterior. Aflito, bateu umas quantas vezes na dita tentando chamar a atenção de quem por ali pudesse estar a passar, mas debalde. Ninguém o ouviu. Bom, ninguém o ouviu não foi bem assim, porque os dois manguelas permaneciam junto à porta e bem riam do pedido de ajuda do acólito. Este, sentindo-se enclausurado, voltou a subir a escadaria de volta ao postigo do sino norte para, daí, ver o que se passava no exterior. Logo reconheceu os dois rapazolas que, lá em baixo, gozavam com a situação. Mas, mesmo depois de muito lhes rogar para que lhe abrissem a porta, os sacanas dos rapazes deram o fora e deixaram-no numa situação algo crítica.
Depois de voltar a subir aqueles cruéis degraus, dirigiu-se a um dos sinos e vai de tocar qualquer coisa, como sinal de rebate. Foi assim, que a vizinha Marília, estranhando tais toques, se dirigiu à porta da Igreja onde pôde ouvir, de viva voz, os apelos do sacristãoà liberdade.
O Saboga saiu, enfim, mas a saga ainda não terminara, já que, ao empunhar os varais do carrinho, sentiu os efeitos de uma massa gorda, a modos que gelatinosa, escorrendo-lhe pelas mãos e antebraços que tresandava. Era mesmo uma porcaria.
No dia seguinte, o Francisco Saboga, já refeito das tropelias de que fora vítima, ainda teve estofo para, na taberna do Xô-Diabo, resumir as peripécias da véspera. E dizia ele, em sinal de desabafo:
- Esse pirata do "Armêndio" (Arménio), foi o que me fechou na torre da Igreja, mas malandro, malandro foi o "Nosso Senhor", que me cagou os varais do carrinho onde eu pus as mãos.
- Quem lhe pôs o "Nosso Senhor", nunca conheceu o Diabo!
A minha homenagem póstuma ao amigo António Constantino Caria, aqui descrito como "Nosso Senhor".
